O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 204
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Bem que eu tentei, pois meu hotel ficava ali perto, na frente do Panthéon, e os
antigos escritórios da editora ficam na calçada sul do boulevard, entre a rue St.-Jacques e
o boulevard Saint-Michel.
— E então?
— O edifício estava vazio e cercado de tapumes, dava a impressão de ter sofrido um
incêndio ou algo assim. A única coisa intacta era o batedor da porta, uma peça realmente
excepcional em forma de anjo. Bronze, eu diria. Teria trazido comigo se não fosse um
policial que me vigiava com o rabo do olho. Também não tive coragem de provocar um
incidente diplomático que ainda podia acabar com a França nos invadindo outra vez.
— Diante do panorama, estariam nos fazendo um favor.
— Se tivesse dito antes... Mas voltando ao assunto, quando vi o estado de tudo aquilo,
fui a um café que ficava ao lado, onde disseram que o edifício já estava naquele estado há
vinte anos.
— Conseguiu descobrir alguma coisa acerca do editor?
— Corelli? Pelo que entendi, a editora fechou quando ele resolveu se aposentar,
embora ainda não tivesse 50 anos. Creio que mudou para uma mansão no sul da França,
no Luberon, e que morreu pouco depois. Mordida de cobra, disseram. Uma víbora. Retirar-
se para a Provence para acabar assim...
— Tem certeza de que morreu?
— Pére Coligny, um antigo concorrente nosso, mostrou seu obituário, que guardava
como se fosse um troféu. Disse que olhava para ele todos os dias a fim de certificar-se de
que aquele maldito filho da mãe estava mesmo morto e enterrado. Palavras textuais,
embora soasse mais bonito e musical em francês.
— Coligny mencionou se o editor tinha algum filho?
— Tive a impressão de que o tal Corelli não era seu assunto predileto e, assim que
pôde, Coligny escafedeu-se. Ao que parece, houve um caso escandaloso, no qual Corelli
roubou um de seus autores, um tal de Lambert.
— O que aconteceu?
— O mais divertido de toda a história é que Coligny nunca chegou a ver Corelli. Todo o
seu contato com ele se resumia à correspondência comercial. O "X" da questão, acho eu,
era que monsieur Lambert tinha assinado um contrato em que se comprometia a escrever
um livro para as Editions de la Lumière às escondidas de Coligny, para quem trabalhava
com exclusividade. Lambert era um viciado em ópio em estado terminal e acumulava
dívidas suficientes para pavimentar a rue de Rivoli de ponta a ponta. Coligny suspeitava