O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 203
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Claro. Resolvido. Embrulhe para o amigo Martín, por conta da casa.
— De maneira nenhuma — objetei.
— No dia em que cobrar a um descrente como você pela palavra de Deus, será o dia
em que serei fulminado por um raio destruidor, e com toda a razão.
Dalmau partiu lépido e fagueiro em busca da Bíblia e segui com Barceló para seu
escritório, onde o livreiro encheu duas xícaras de chá e me brindou com um charuto saído
de seu umidificador. Aceitei e acendi na chama de uma vela que Barceló me ofereceu.
— Macanudo?.
— Vejo que está educando seu paladar. Um homem tem que ter vícios, se possível de
categoria, ou não terá do que se redimir quando ficar velho. De fato, se o diabo der licença,
vou acompanhá-lo.
Uma nuvem da preciosa fumaça do charuto nos cobriu como maré alta.
— Estive em Paris há alguns meses e tive a oportunidade de fazer algumas
indagações sobre o assunto que mencionou tempos atrás ao amigo Sempere — replicou
Barceló.
— Éditions de la Lumière.
— Efetivamente. Gostaria de ter conseguido mais, mas lamentavelmente, desde que a
editora fechou, parece que ninguém comprou o catálogo e foi muito difícil obter alguma
coisa.
— Disse que fechou? Quando?
— Mil novecentos e catorze, se não me falha a memória.
— Deve haver um erro.
— Não, se estivermos falando de Éditions de la Lumière, no boulevard Saint-Germain.
— Ela mesma.
— Olhe, pode ver que anotei tudo para não me esquecer quando nos víssemos.
Barcelo foi até a gaveta da escrivaninha e tirou um caderninho de notas.
— Aqui está: "Éditions de la Lumière, editora de textos religiosos com escritórios em
Roma, Paris, Londres e Berlim. Fundador e editor, Andreas Corelli. Data de abertura do
primeiro escritório em Paris, 1881."
— Impossível — murmurei.
Barceló deu de ombros.
— Bem, posso ter me enganado, porém...
— Teve ocasião de visitar o escritório?