PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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À tarde, deixei Isabella instalada na escrivaninha que tínhamos arrumado para ela na galeria, enfrentando as páginas em branco, e fui até a livraria de dom Gustavo Barcelo, na Rua Fernando, com a intenção de adquirir uma boa e legível edição da Bíblia. Todos os jogos de novos e velhos testamentos de que a casa dispunha eram impressos numa letra microscópica em papel Oxford semitransparente e sua leitura, mais que fervor ou inspiração divina, provocava enxaqueca. Barceló, que entre muitas outras coisas, era um persistente colecionador de livros sagrados e textos apócrifos cristãos, mantinha uma área reservada nos fundos da livraria, onde se encontrava um formidável sortimento de evangelhos, memórias de santos e beatos e todo tipo de textos religiosos.
Quando me viu entrar, um de seus empregados correu para avisar o patrão na sala dos fundos. Barceló emergiu eufórico de seu escritório.
— Benditos sejam os meus olhos. Sempere já tinha me dito que você tinha renascido, mas essa é antológica. A seu lado, Rodolfo Valentino parece recém-chegado da roça. Onde andava metido, seu moleque?— Por aí— disse eu.— Em toda parte menos no casamento de Vidal. Ele sentiu sua falta, caro amigo.— Duvido muito. O livreiro concordou, dando a entender que já tinha percebido meu desejo de não tocar naquele assunto.— Aceitaria uma xícara de chá?— Até duas. E uma Bíblia. Legível, se possível.— Isso não é problema— disse o livreiro.— Dalmau? Um dos vendedores atendeu solícito à chamada.— Dalmau, aqui o amigo Martín precisa de uma edição da Bíblia de caráter não decorativo, mas legível. Estou pensando em Torres Amat, 1825. O que acha? Uma das particularidades da livraria de Barceló era que lá se falava de livros como se fossem vinhos raros, catalogando buquê, aroma, consistência e ano da colheita.— Excelente escolha, Sr. Barceló, mas eu daria preferência à versão atualizada e revista.— Mil oitocentos e sessenta?— Mil oitocentos e noventa e três.