O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 201

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Eu também gostaria que me pagassem para escrever — comentou. — Todo mundo que escreve gostaria de ser pago, o que não significa que alguém vai fazer isso. — E como fazer, então? — Começando por descer para a galeria, pegar o papel e... — ... fincar os cotovelos e espremer o cérebro até doer. Certo. Olhou dentro dos meus olhos, hesitando. Já fazia duas semanas e meia que estava em minha casa e eu não tinha tomado nenhuma providência para mandá-la de volta. Supus que estivesse se perguntando quando ia fazê-lo ou por que não o tinha feito ainda. Era o que eu também me perguntava. E não encontrava resposta. — Gosto de ser sua assistente, mesmo você sendo do jeito que é — disse finalmente. Olhava para mim como se sua vida dependesse de uma palavra amável. Sucumbi à tentação. As boas palavras são bondades inúteis que não exigem sacrifício algum e recebem mais agradecimentos do que as verdadeiras bondades. — Eu também gosto, Isabella, mesmo sendo do jeito que sou. E vou gostar mais ainda quando não precisar mais ser minha assistente e não tiver mais nada para aprender comigo. — Acha que essa possibilidade existe? — Não tenho nenhuma dúvida. Em dez anos, você vai ser o mestre e eu o aprendiz — disse eu, repetindo aquelas palavras que ainda tinham um sabor de traição. — Mentiroso — disse beijando meu rosto para, em seguida, sair correndo escada abaixo.