O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 200
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Isso é o que você acha. Não é tão misterioso quanto pensa.
— Não pretendo ser misterioso.
— Era um substituto amável para antipático. Eu também conheço alguns truques de
retórica.
— Isso não é retórica. É ironia. São coisas diferentes.
— Precisa ganhar todas as discussões?
— Quando facilitam muito as coisas, sim.
— E esse homem, seu patrão...
— Corelli?
— Corelli. Facilita as coisas?
— Não. Corelli conhece ainda mais truques de retórica do que eu.
— Foi o que pensei. E confia nele?
— Por que pergunta isso?
— Não sei. Você confia?
— Por que não iria confiar?
Isabella deu de ombros.
— E o que foi exatamente que ele encomendou? Não vai me contar?
— Já disse. Quer que escreva um livro para a sua editora.
— Um romance?
— Não exatamente. É mais uma fábula. Uma lenda.
— Um livro infantil?
— Mais ou menos isso.
— E você vai escrever?
— Ele paga muito bem.
Isabella franziu o cenho.
— É por isso que escreve? Porque lhe pagam bem?
— As vezes.
— E dessa vez?
— Dessa vez vou escrever um livro porque tenho que fazê-lo.
— Está em dívida com ele?
— É uma forma de dizer, acho eu.
Isabella avaliou o assunto. Tive a impressão de que ia dizer algo, mas pensou duas
vezes e mordeu os lábios. Em troca, ofereceu um sorriso inocente e um daqueles olhares
angelicais com que costumava mudar de assunto num piscar de olhos.