O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 199

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Documentação? E como é que funciona?
— Basicamente, lendo milhares de páginas para aprender o necessário e chegar ao essencial do tema, à sua verdade emocional, e em seguida, desaprender tudo para começar do zero. Isabella suspirou.— O que é verdade emocional?— É a sinceridade dentro da ficção.— Então é preciso ser honesto e bom para escrever ficção?— Não. É preciso perícia. A verdade emocional não é uma qualidade moral, é uma técnica.— Está falando como um cientista— protestou Isabella.— A literatura, pelo menos a boa, é uma ciência com sangue de arte. Como a arquitetura ou a música.— Pensei que era algo que brotava do artista, assim, sem mais nem menos.— A única coisa que brota sem mais nem menos é pêlo e verruga. Isabella considerou aquelas revelações com pouco entusiasmo.— Está dizendo tudo isso para me desanimar porque quer que eu volte para casa.— Quem dera!— E você é o pior professor do mundo.— O aluno faz o professor, e não o contrário.— Não dá para discutir com você, pois sabe todos os truques de retórica. Não é justo.— Nada é justo. O máximo que se pode desejar é que seja lógico. A justiça é uma enfermidade rara num mundo que, de resto, é saudável como um carvalho.— Amém. É isso que acontece quando a gente fica velho? Deixar de acreditar nas coisas, como você?
— Não. À medida que envelhece, a maioria das pessoas continua acreditando em bobagens, em geral cada vez maiores. Eu nado contra a corrente, pois gosto de provocar as pessoas.
— Não diga. Pois quando eu ficar velha, vou continuar a acreditar nas coisas— ameaçou Isabella.— Boa sorte.— E além do mais, acredito em você. Não desviou os olhos quando olhei para ela.— Porque não me conhece.