O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 198

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — A boa notícia é que as mocinhas gostam de homens mais velhos e a má, que os homens mais velhos, sobretudo os decrépitos e babões, gostam de mocinhas. — Eu sei. Não pense que sou idiota. Isabella ficou me observando e sorriu com malícia. Lá vem, pensei. — E você, também gosta de mocinhas? Já tinha a resposta na ponta da língua antes que ela formulasse a pergunta. Adotei um tom professoral e isento, como um professor catedrático de geografia. — Gostava quando tinha a sua idade. Geralmente, gosto das moças da minha idade. — Na sua idade não são mocinhas, são senhoritas ou, se quer mesmo saber, senhoras. — Fim de papo. Não tem nada para fazer lá embaixo? — Não. — Então comece a escrever. Não veio para cá para lavar pratos e esconder minhas coisas. Veio porque disse que queria aprender a escrever e que eu era o único idiota que conhecia para ajudá-la. — Não precisa se chatear. É que estou sem inspiração. — A inspiração virá quando fincar os cotovelos na mesa, o traseiro na cadeira e começar a suar. Escolha um tema, uma idéia e esprema o cérebro até doer. É isso que se chama inspiração. — Tema, eu já tenho. — Aleluia. — Vou escrever sobre você. Um longo silêncio de olhares que se enfrentam, de adversários que se encaram através do tabuleiro. — Por quê? — Porque acho que é interessante. E especial. — E velho. — E suscetível. Quase como um menino da minha idade. Apesar dos pesares, estava começando a me acostumar com a companhia de Isabella, suas alfinetadas e a luz que trazia àquela casa. Se continuasse assim, meus piores temores iam se realizar e acabaríamos nos tornando bons amigos. — E você, já escolheu um tema com todos esses calhamaços que anda consultando? Decidi que quanto menos contasse a Isabella sobre minha tarefa, melhor seria. — Ainda estou na fase de juntar documentação.