O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 197
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Os dias passavam entre leituras e tropeços. Acostumado a anos de vida solitária,
naquele estado de metódica e subestimada anarquia própria dos homens solteiros, a
presença contínua de uma mulher em casa, embora fosse uma adolescente rebelde e de
caráter volátil, começava a dinamitar meus hábitos e costumes de uma maneira sutil, mas
sistemática. Eu acreditava na desordem categorizada; Isabella, não. Acreditava que os
objetos se encontram num lugar próprio dentro do caos de uma casa; Isabella, não.
Acreditava na solidão e no silêncio; Isabella, não. Em apenas um par de dias, descobri que
era incapaz de encontrar o que quer que fosse em minha própria casa. Se precisava de um
abridor de cartas, um copo ou um par de sapatos, tinha que perguntar a Isabella onde a
providência tinha decidido inspirá-la a escondê-los.
— Não escondo nada. Ponho as coisas em seus lugares, o que é muito diferente.
Não se passava um dia sem que sentisse o impulso de esganá-la, pelo menos, umas
duzentas vezes. Quando me refugiava no escritório em busca de paz e sossego para
pensar, Isabella aparecia em alguns minutos para trazer uma xícara de chá ou doces, toda
sorridente. Começava a dar voltas pelo escritório, ficava na janela, começava a organizar o
que havia na escrivaninha e logo estava perguntando o que eu fazia ali, tão calado e
misterioso. Descobri que as mocinhas de 17 anos possuem uma capacidade verbal de tal
magnitude que seu cérebro as obriga a exercê-la a cada vinte segundos. No terceiro dia,
atinei que precisava arrumar um namorado para ela, se possível, surdo.
— Isabella, como é que uma moça tão cheia de qualidades como você não tem
pretendentes?
— E quem disse que não tenho?
— Não gosta de nenhum rapaz?
— Os rapazes da minha idade são chatos. Não têm nada a dizer e ainda por cima,
metade deles parece estúpida.
Ia dizer que certamente melhorariam com a idade, mas não quis azedar seu doce.
— Prefere de que idade, então?
— Velhos. Como você.
— Pareço velho?
— Bem, não é mais nenhum menino, com certeza.
Preferi acreditar que estava zombando de mim a registrar aquele golpe em plena
vaidade. E resolvi dar o troco com umas gotas de sarcasmo.