O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 197

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 13 Os dias passavam entre leituras e tropeços. Acostumado a anos de vida solitária, naquele estado de metódica e subestimada anarquia própria dos homens solteiros, a presença contínua de uma mulher em casa, embora fosse uma adolescente rebelde e de caráter volátil, começava a dinamitar meus hábitos e costumes de uma maneira sutil, mas sistemática. Eu acreditava na desordem categorizada; Isabella, não. Acreditava que os objetos se encontram num lugar próprio dentro do caos de uma casa; Isabella, não. Acreditava na solidão e no silêncio; Isabella, não. Em apenas um par de dias, descobri que era incapaz de encontrar o que quer que fosse em minha própria casa. Se precisava de um abridor de cartas, um copo ou um par de sapatos, tinha que perguntar a Isabella onde a providência tinha decidido inspirá-la a escondê-los. — Não escondo nada. Ponho as coisas em seus lugares, o que é muito diferente. Não se passava um dia sem que sentisse o impulso de esganá-la, pelo menos, umas duzentas vezes. Quando me refugiava no escritório em busca de paz e sossego para pensar, Isabella aparecia em alguns minutos para trazer uma xícara de chá ou doces, toda sorridente. Começava a dar voltas pelo escritório, ficava na janela, começava a organizar o que havia na escrivaninha e logo estava perguntando o que eu fazia ali, tão calado e misterioso. Descobri que as mocinhas de 17 anos possuem uma capacidade verbal de tal magnitude que seu cérebro as obriga a exercê-la a cada vinte segundos. No terceiro dia, atinei que precisava arrumar um namorado para ela, se possível, surdo. — Isabella, como é que uma moça tão cheia de qualidades como você não tem pretendentes? — E quem disse que não tenho? — Não gosta de nenhum rapaz? — Os rapazes da minha idade são chatos. Não têm nada a dizer e ainda por cima, metade deles parece estúpida. Ia dizer que certamente melhorariam com a idade, mas não quis azedar seu doce. — Prefere de que idade, então? — Velhos. Como você. — Pareço velho? — Bem, não é mais nenhum menino, com certeza. Preferi acreditar que estava zombando de mim a registrar aquele golpe em plena vaidade. E resolvi dar o troco com umas gotas de sarcasmo.