O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 188

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Dois dias depois, já tinha feito amizade com Eulália, a bibliotecária-chefe, que selecionava textos e volumes para mim no meio do oceano de papel que tinha sob sua responsabilidade. De vez em quando, vinha visitar minha mesa de canto para perguntar se precisava de algo mais. Devia ter a minha idade, e sua inteligência transbordava, geralmente em forma de alfinetadas penetrantes e vagamente venenosas. — O cavalheiro realmente se dedica às coisas santas. Resolveu ser padre, agora, às portas da maturidade? — É só uma pesquisa. — Ah, é o que todos dizem. As brincadeiras e a inteligência da bibliotecária eram um bálsamo inestimável para sobreviver no meio daqueles textos de composição pétrea e continuar minha peregrinação documental. Quando Eulalia tinha um tempo livre, aproximava-se de minha mesa e ajudava a arrumar todo aquele palavrório. Eram páginas em que abundavam relatos de pais e filhos, mães puras e santas, traições e conversões, profecias e profetas mártires, enviados do céu ou da glória, bebês nascidos para salvar o universo, entes malévolos de aspecto horripilante e geralmente de aparência animal, seres etéreos, mas com traços raciais aceitáveis, que atuavam como agentes do bem, e heróis submetidos a provas tenebrosas pelo destino. Percebia-se sempre a noção da existência terrena como uma espécie de estação de passagem que convidava à docilidade e à aceitação da própria vida e das normas da tribo, pois a recompensa sempre estava num além que prometia paraísos transbordantes de tudo aquilo que havia faltado na vida corpórea. Ao meio-dia de sexta-feira, Eulalia aproximou-se de minha mesa durante uma das pausas e perguntou se, além de ler missais, eu comia de vez em quando. Convidei-a para almoçar na Casa Leopoldo, que tinha acabado de abrir as portas não muito longe dali. Enquanto degustávamos uma excelente rabada, contou que estava havia anos naquele cargo e que, havia dois anos, trabalhava num romance que nunca acabava e que tinha como cenário central a biblioteca del Carmen e como argumento uma série de misteriosos crimes que acontecia em seus domínios. — Gostaria de escrever algo parecido com aqueles folhetins de Ignatius B. Samson — disse. — Já ouviu falar? — Vagamente — respondi. Eulalia sentia que faltava um não-sei-o-quê em seu livro e sugeri que lhe desse um tom ligeiramente sinistro e que centrasse a história num livro secreto possuído por um espírito atormentado, com subtramas de aparente conteúdo sobrenatural.