O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 187
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Mais do que pensa. E não tem por que ficar assim. Só estou tentando ajudar. Ou
resolveu deixar de ser um escritor profissional para se transformar num diletante de salão
de chá?
— No momento estou com as mãos ocupadas servindo de babá.
— Se fosse você, não ia querer discutir quem é que serve de babá para quem, porque
essa eu ganho de lavada.
— E que tipo de discussão agradaria sua excelência?
— A arte comercial contra as idiotices com moral da história.
— Querida Isabella, minha pequena Vesúvia: na arte comercial, e toda arte que
mereça esse nome acaba, cedo ou tarde, sendo comercial, a estupidez está quase sempre
no olhar do espectador.
— Está me chamando de estúpida?
— Estou dando uma chamada em você. Faça o que mandei. E ponto final. Calada!
Apontei a porta e Isabella revirou os olhos, murmurando algum insulto que não
consegui ouvir enquanto se afastava pelo corredor.
Enquanto Isabella percorria colégios e livrarias atrás de livros de texto e catecismos
variados para resumir, eu ia à biblioteca del Carmen para aprofundar minha educação
teológica, missão a que me entregava sustentado por doses extravagantes de café e muito
estoicismo. Os primeiros sete dias daquela estranha criação só trouxeram dúvidas. Uma
das poucas certezas que encontrei foi de que a vasta maioria dos autores que se sentiram
chamados a escrever sobre o divino, o humano e o sagrado podiam até ser estudiosos
eruditos e piedosos em grau máximo, mas como escritores eram uma porcaria. O leitor que
padecesse da obrigação de viajar por aquelas páginas tinha que dar um duro danado para
não entrar em coma induzido pelo tédio a cada novo parágrafo.
Depois de conseguir sobreviver a mais de mil páginas sobre o assunto, fiquei com a
impressão de que as centenas de crenças religiosas catalogadas ao longo da história da
palavra escrita eram extraordinariamente semelhantes entre si. Atribuí essa primeira
impressão à minha ignorância ou à falta de documentação adequada, mas não conseguia
afastar de mim a sensação de ter lido e relido o argumento de dezenas de histórias
policiais nas quais o assassino podia ser esse ou aquele, mas a mecânica da trama era, na
essência, sempre a mesma. Mitos e lendas, tanto sobre divindades, quanto sobre a
formação e a história de povos e raças, começaram a parecer imagens de quebra-cabeças
vagamente diferenciadas e construídas invariavelmente com as mesmas peças, mas numa
ordem diversa.