O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 180
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
vinho. Ouvi que chorava com raiva do outro lado da parede. Quando apareceu na porta da
cozinha, tinha os olhos vermelhos e parecia mais menina do que nunca.
— Não sei se ainda tenho fome — murmurou.
— Sente-se e coma.
Sentamos na mesinha que ficava no centro da cozinha. Isabella examinou o prato de
arroz e legumes variados que eu tinha posto na sua frente com uma certa desconfiança.
— Coma — ordenei.
Pegou uma garfada para experimentar e levou à boca.
— Está gostoso — disse.
Servi meio copo de vinho para ela e enchi o resto com água.
— Meu pai não me deixa tomar vinho.
— Não sou seu pai.
Jantamos em silêncio, trocando olhares. Isabella limpou o prato e comeu o pedaço de
pão que tinha lhe dado. Sorria timidamente. Ainda não tinha internalizado o perigo de todo.
Em seguida, fui com ela até a porta de seu quarto e acendi a luz.
— Tente descansar um pouco — disse. — Se precisar de alguma coisa, dê uma batida
na parede. Estarei no quarto ao lado.
Isabella concordou.
— Já ouvi seu ronco na outra noite.
— Eu não ronco.
— Deve ser o encanamento. Ou, no mínimo, algum vizinho que tem um urso de
estimação.
— Mais uma palavra e está na Rua de novo.
Isabella sorriu e fez que sim.
— Obrigada — murmurou. — Não feche a porta totalmente, por favor. Deixe
encostada.
— Boa noite — disse eu, apagando a luz e deixando Isabella no escuro. Mais tarde,
enquanto me despia no quarto, percebi que tinha uma marca escura no rosto, como uma
lágrima negra. Aproximei-me do espelho e limpei com os dedos. Era sangue seco. Só
então me dei conta de que estava exausto, e meu corpo inteiro doía.