O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 181
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Na manhã seguinte, antes que Isabella despertasse, fui até o armazém de importados
que sua família possuía na Rua Mirallers. Mal tinha amanhecido e a grade da loja já estava
meio aberta. Enfiei-me para o interior e encontrei dois rapazes empilhando caixas de chá e
outras mercadorias sobre o balcão.
— Está fechado — disse um deles.
— Pois não parece. Estou procurando pelo dono.
Enquanto esperava, distraí-me examinando o empório familiar de Isabella, a ingrata
herdeira que renegava o mel do comércio para submeter-se às misérias da literatura. A loja
era um pequeno bazar de maravilhas trazidas de todos os cantos do mundo. Geléias,
doces e chás. Cafés, especiarias e conservas. Frutas e carnes curadas. Chocolates e
presuntos defumados. Um paraíso pantagruélico para bolsos bem fornidos. Dom Odón, pai
da garota e encarregado do estabelecimento, surgiu em carne e osso envergando um
guarda-pó azul, um bigode de marechal e uma expressão de desolação que o punha a
uma proximidade alarmante de um infarto. Resolvi pular as gentilezas.
— Sua filha diz que guarda uma escopeta de dois canos, com a qual prometeu me
matar — disse, abrindo os braços em cruz. — Aqui estou eu.
— Quem é você, sem-vergonha?
— Sou o sem-vergonha que teve que hospedar uma mocinha porque o molóide do pai
dela é incapaz de mantê-la na linha.
A raiva escorregou de seu rosto e o dono da mercearia exibiu um sorriso aflito e
intimidado.
— Sr. Martín? Não reconheci o senhor... Como está a menina?
Suspirei.
— Está sã e salva em minha casa, roncando como um cachorro grande, mas com a
honra e a virtude intactas.
O comerciante se benzeu duas vezes consecutivas, aliviado.
— Deus lhe pague.
— E o acompanhe, mas nesse meio-tempo vou pedir que faça o favor de ir buscar sua
filha no decorrer do dia de hoje ou vou ter que partir sua cara, com escopeta ou não.
— Escopeta? — murmurou o homem, confuso.