O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 178
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
9
Foi então que a vi, encolhida no degrau de uma porta daquele túnel miserável e
estreito que chamavam de Rua das Moscas. Isabella. Fiquei me perguntando há quanto
tempo estava lá e pensei que não era problema meu. Ia fechar a janela e retirar-me para o
escritório quando percebi que não estava sozinha. Dois vultos aproximavam-se dela
lentamente, talvez demais, vindos da extremidade da Rua. Suspirei, desejando que
passassem direto. Não foi o que fizeram. Um deles colocou-se do outro lado bloqueando a
saída da viela. O outro abaixou-se diante da moça, esticando o braço em sua direção. Ela
se moveu. Instantes depois os dois vultos lançaram-se sobre Isabella e pude ouvir seus
gritos.
Precisei de cerca de um minuto para chegar lá. Quando o fiz, um dos homens tinha
agarrado Isabella pelos braços e o outro tinha levantado sua saia. Uma expressão de terror
tencionava o rosto da moça. O segundo indivíduo, que estava abrindo caminho entre suas
coxas dando risadinhas, apoiava uma faca contra sua garganta. Três linhas de sangue
escorriam do corte. Olhei ao redor. Um par de caixas com entulho, uma pilha de
paralelepípedos e materiais de construção abandonados contra a parede. Agarrei uma
barra de metal de meio metro, que se mostrou sólida e pesada. O primeiro a perceber
minha presença foi o que segurava a faca. Dei um passo à frente, brandindo a barra de
metal. Seu olhar saltou da barra para os meus olhos e vi que o sorrisinho se apagava em
seus lábios. O outro virou e me viu avançar para ele com a barra no alto. Bastou que
fizesse um sinal com a cabeça para que soltasse Isabella e saltasse rapidamente para trás
do parceiro.
— Melhor a gente se picar — murmurou.
O outro ignorou suas palavras. Olhava fixamente para mim com fogo nos olhos e a
faca nas mãos.
— Quem te convidou para a festa, seu filho da puta?
Peguei Isabella pelo braço, puxando-a do chão sem tirar os olhos do homem com a
arma. Peguei as chaves no bolso e dei para ela.
— Vá para casa — disse. — Faça o que estou mandando.
Isabella hesitou um instante, mas ouvi seus passos afastando-se pela viela em direção
à Flassanders. O sujeito que segurava a faca viu que se afastava e sorriu com raiva.
— Vou te furar, babaca.