O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 177

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA O motorista, uma silhueta escura do outro lado de uma divisória de vidro, fez um breve sinal afirmativo. Atravessamos Barcelona no silêncio narcótico daquela carruagem de metal, que mal parecia roçar o solo. Vi Ruas e edifícios desfilarem através das janelas como se fossem desfiladeiros submersos. Já passava de meia-noite quando o Rolls-Royce negro virou na Rua Comercio e entrou no passeio do Born. O carro parou junto à Rua Flassanders, estreita demais para permitir sua passagem. O motorista desceu e abriu a porta para mim com uma reverência. Desci do carro e ele fechou a porta, voltando a entrar no carro sem dizer uma palavra. Fiquei olhando enquanto se afastava, até que a silhueta escura se desfez num véu de sombras. Perguntei-me o que eu tinha feito mas, preferindo não encontrar a resposta, fui para casa sentindo como se o mundo inteiro fosse uma prisão sem escapatória. Ao entrar em casa, fui diretamente para o escritório. Abri as janelas aos quatro ventos e deixei que a brisa úmida e ardente penetrasse na sala. Em alguns terraços do bairro, viam-se figuras estendidas sobre colchões e lençóis, tentando escapar do calor asfixiante e conseguir dormir. Ao longe, as três grandes chaminés do Paralelo erguiam-se como piras funerárias, espalhando um manto de cinzas brancas que se estendia como poeira de vidro sobre Barcelona. Mais perto, a estátua da Mercê levantando vôo da cúpula da igreja de Nossa Senhora das Mercês lembrava tanto o anjo do Rolls-Royce, quanto o que estava sempre na lapela de Corelli. Senti que a cidade, depois de muitos meses de silêncio, voltava a falar comigo e a revelar seus segredos.