O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 176

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Corelli sorriu e pousou a mão sobre a minha. Senti um calafrio ao contato de sua pele gelada e lisa como mármore.— Porque você quer viver.— Isso soa vagamente ameaçador.— Um simples e amistoso lembrete daquilo que já sabe. Vai me ajudar porque quer viver e porque o preço e as conseqüências não lhe importam. Porque, pouco tempo faz, estava às portas da morte e agora tem uma eternidade pela frente e uma vida para viver. Vai me ajudar porque é humano. E porque, embora não queira aceitar isso, tem fé.
Retirei a mão de seu alcance e fiquei olhando para ele enquanto se levantava, dirigindo-se ao extremo do jardim.
— Não se preocupe, Martín. Tudo vai correr bem. Pode confiar— disse Corelli em tom doce e hipnotizante, quase paternal.— Já posso ir?— Claro. Não quero retê-lo aqui mais do que o necessário. Gostei muito de nossa conversa. Agora deixarei que se retire e vá refletindo sobre tudo que comentamos. Verá como, passada a indigestão, perceberá que as verdadeiras respostas vão chegar até você. Não há nada no caminho da vida que já não saibamos antes de começar. Não aprendemos nada de importante na vida, apenas recordamos. Levantou e fez um sinal a seu sinistro mordomo, que esperava no fundo do jardim.— Um carro vai pegá-lo e levá-lo à sua casa. Vamos nos encontrar de novo em duas semanas.— Aqui?— Deus é quem sabe— disse lambendo os lábios como se aquilo fosse uma ironia deliciosa. O mordomo aproximou-se e fez sinal para que o seguisse. Corelli acenou e voltou a sentar-se, o olhar perdido novamente sobre a cidade.
O carro, se é que podia chamá-lo assim, esperava na porta do casarão. Não era um automóvel qualquer, mas uma peça de colecionador. Lembrava uma carruagem encantada, uma catedral móvel de cromados e curvas feitas de pura ciência, arrematada pela figura de um anjo de prata sobre o motor, como uma carranca de proa. Em outras palavras, era um Rolls-Royce. O mordomo abriu a porta e despediu-se com uma reverência. Dentro mais parecia um quarto de hotel do que o interior de um veículo. O carro arrancou assim que me acomodei no banco e deslizou colina abaixo.
— Sabe o endereço?— perguntei.