O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 175

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Não. É impossível estabelecer um diálogo racional com alguém a respeito de crenças e conceitos que não foram adquiridos através da razão. Tanto faz que falemos de Deus, de raça ou de patriotismo. Por isso, preciso de algo mais poderoso do que uma simples exposição retórica. Necessito da força da arte, preciso da encenação. A letra da canção é o que pensamos entender, mas o que faz com que acreditemos, ou não, é a melodia. Tratei de absorver todo aquele blábláblá sem engasgar. — Fique tranqüilo, não haverá mais discursos por hoje — abreviou Corelli. — Agora, vamos ao prático: vamos nos reunir aproximadamente a cada 15 dias. Você apresentará o trabalho feito e discutiremos os seus progressos. Se tiver mudanças e observações a fazer, eu direi. O trabalho se estenderá por 12 meses ou a fração disso necessária para que seja terminado. Ao final desse prazo, terá que me entregar tudo o que tiver feito e a documentação que gerou, sem exceção, ao único proprietário e detentor dos direitos, ou seja, eu. Seu nome não vai figurar na autoria do documento e terá que assumir o compromisso de não reclamá-la posteriormente, de não discutir o trabalho realizado ou os termos desse acordo, em particular ou em público, com ninguém. Em troca, receberá o pagamento inicial de 100 mil francos, que já foi efetivado, e ao término, com a condição de que o trabalho entregue previamente seja considerado satisfatório, uma bonificação de mais 50 mil francos. Engoli em seco. Ninguém está plenamente consciente da cobiça que se esconde em seu coração até o momento em que ouve o doce tilintar da grana em seu bolso. — Não prefere formalizar um acordo por escrito? — O nosso é um acordo de honra. A sua e a minha. E já foi estabelecido. Um acordo de honra que não pode ser quebrado, pois quebraria quem o firmou — disse Corellli, num tom que me fez pensar que teria sido preferível assinar um papel, nem que fosse com sangue. — Alguma dúvida? — Sim. Para que tudo isso? — Não consigo entendê-lo, Martín. — Para que quer esse material ou como quer que queira chamá-lo? O que pensa fazer com ele? — Problemas de consciência a essa altura, Martín? — Talvez me tome por uma pessoa sem escrúpulos, mas se vou participar de alguma coisa como a que me propõe, quero saber qual é o objetivo. Creio que tenho esse direito.