O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 174
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
santo. O avarento, como generoso. O mesquinho, como patriota. O arrogante, como
humilde. O vulgar, como elegante. E o tolo, como intelectual. Mais uma vez, tudo obra da
natureza, que longe de ser a figura delicada que os poetas cantam, é uma mãe cruel e
voraz que se alimenta das criaturas que vai parindo para poder continuar viva.
Corelli e sua poética da biologia feroz começavam a me dar náusea. A veemência e o
ódio contidos que as palavras do editor destilavam me incomodavam e fiquei me
perguntando se haveria alguma coisa no universo que não lhe parecesse repugnante e
desprezível, inclusive a minha pessoa.
— Poderia ministrar conferências muito inspiradoras em escolas e paróquias no
Domingo de Ramos. Seu sucesso seria esmagador — sugeri.
Corelli riu friamente.
— Não mude de assunto. O que procuro é o oposto de um intelectual, quero dizer,
procuro alguém inteligente. E já encontrei.
— Está me bajulando.
— Melhor que isso, estou pagando. E muito bem, que é o melhor afago verdadeiro
nesta droga de mundo. Nunca aceite condecorações que não venham impressas num
cheque. Só beneficiam a quem as distribui. E já que pago, espero que me ouça e siga
minhas instruções. Pode acreditar quando digo que não tenho nenhum interesse em fazê-
lo perder tempo. Enquanto viver às minhas custas, seu tempo é também o meu.
Seu tom era amável, mas o brilho dos olhos parecia de aço e não deixava lugar a
dúvidas.
— Não é necessário que me recorde isso a cada cinco minutos.
— Desculpe a minha insistência, amigo Martín. Se o aborreço com todos esses
rodeios é para tirá-los de nosso caminho o quanto antes. O que quero de você é a forma,
não a essência. A essência é sempre a mesma e existe desde que o ser humano surgiu.
Está gravada em seu coração como um número de série. O que quero é que encontre um
modo inteligente e sedutor de responder às perguntas que todos fazemos e que o faça a
partir de sua própria leitura da alma humana, colocando sua arte e seu ofício em prática.
Quero que me traga uma narrativa que desperte a alma.
— Nada mais...
— E nada menos.
— Está falando em manipular sentimentos e emoções. Não seria mais fácil convencer
as pessoas com uma exposição racional, simples e clara?