O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 173

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
que percebemos no universo, a certeza da morte, o mistério da origem das coisas ou o sentido de nossa própria vida, ou ainda a completa ausência dele. São aspectos elementares e de extraordinária simplicidade, mas nossas próprias limitações nos impedem de responder de modo compreensível a tais perguntas e por isso criamos, como defesa, uma resposta emocional. É pura e simples biologia.— A seu ver, portanto, todas as crenças ou ideais não seriam mais que uma ficção.— Toda interpretação ou observação da realidade o é, necessariamente. Nesse caso, o problema reside no fato de que o homem é um animal moral num universo amoral, condenado a uma existência finita e sem nenhum outro significado além de perpetuar o ciclo natural da espécie. É impossível sobreviver num estado prolongado de realidade, pelo menos para um ser humano. Passamos boa parte de nossas vidas sonhando, sobretudo quando estamos acordados. Como disse, simples biologia. Suspirei.— E depois de tudo isso, pretende que eu invente uma fábula que faça os ingênuos caírem de joelhos, convencendo-os de que viram a luz, de que existe alguma coisa em que acreditar, pela qual viver, pela qual morrer e até mesmo matar.
— Exatamente. Não peço que invente nada que já não tenha sido inventado de uma forma ou de outra. Peço simplesmente que me ajude a dar de beber a quem tem sede.— Um propósito louvável e piedoso— ironizei.— Não, uma simples proposta comercial. A natureza é um grande mercado livre. A lei da oferta e procura é um fato molecular.
— Talvez devesse procurar um intelectual para essa tarefa. Falando de fatos moleculares e mercantis, garanto que a maioria deles nunca viu 100 mil francos juntos em toda a sua vida e aposto que estariam dispostos a vender a própria alma, ou a inventá-la, por uma fração dessa quantia.
O brilho metálico em seus olhos me fez suspeitar que Corelli ia me brindar com mais um de seus ácidos sermões de bolso. Visualizei o saldo que repousava em minha conta no banco Hispano Americano e pensei que 100 mil francos bem que valiam uma missa ou alguns sermões.
— Um intelectual é alguém que, de hábito, não se distingue exatamente por seu intelecto— sentenciou Corelli.— Atribui tal qualitativo a si mesmo para compensar a impotência natural que intui em suas capacidades. É aquele velho e certíssimo ditado: diga-me do que se vangloria e eu lhe direi do que careces. É o pão de cada dia. O incompetente sempre se apresenta como capaz. O cruel, como piedoso. O pecador, como