O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 170

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 8 Anoitecia quando desci para a Rua. O calor e a umidade tinham levado vários vizinhos do bairro a espalhar cadeiras pela calçada em busca de uma brisa que se recusava a chegar. Evitei as rodinhas improvisadas diante das portarias e esquinas e fui para a Estação da França, onde sempre havia pelo menos dois ou três táxis à espera de passageiros. Abordei o primeiro da fila. Levamos vinte minutos para atravessar a cidade e subir a ladeira da colina sobre a qual descansava o fantasmagórico parque do arquiteto Gaudí. As luzes da casa de Corelli podiam ser vistas de longe. — Não sabia que tinha alguém morando aqui — comentou o motorista. Assim que paguei a corrida, gorjeta incluída, ele não levou um segundo para sair dali às pressas. Esperei alguns instantes antes de bater na porta, saboreando o estranho silêncio que reinava naquele lugar. Nem uma única folha se agitava no bosque que cobria a colina às minhas costas. Um céu semeado de estrelas e pincelado de nuvens se estendia em todas as direções. Podia ouvir o som de minha própria respiração, de minhas roupas farfalhando ao andar, de meus passos aproximando-se da porta. Bati na porta e esperei. A porta se abriu momentos depois. Um homem de olhar e ombros caídos inclinou a cabeça ao deparar comigo e indicou que entrasse. Seus trajes sugeriam que se tratava de uma espécie de mordomo ou criado. Não emitiu nenhum som. Segui atrás dele pelo corredor que recordava repleto de retratos e, no final, deu passagem para que entrasse no grande salão, do qual se podia contemplar toda a cidade à distância. Com uma leve reverência, deixou-me ali sozinho, retirando-se com a mesma lentidão com que tinha me acompanhado até lá. Aproximei-me das janelas e olhei por entre as cortinas, matando o tempo enquanto Corelli não vinha. Tinham se passado cerca de dois minutos, quando percebi que um vulto me observava de um canto da sala. Estava sentado, completamente imóvel, entre a penumbra e a luz de um abajur que só revelava as pernas e as mãos apoiadas nos braços da poltrona. Só o reconheci pelo brilho dos olhos que nunca piscavam e pelo reflexo da luz no broche em forma de anjo que sempre usava na lapela. Assim que pousei o olhar nele, levantou-se e veio em minha direção em passos rápidos, rápidos demais, com um sorriso lupino nos lábios que me gelou o sangue. — Boa-noite, Martín. Acenei tentando corresponder a seu sorriso.