O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | 页面 169
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
coração. Esqueci o pranto de Isabella e só desejei que chegasse logo a hora de encontrar
Corelli para discutir sobre o maldito livro.
Fiquei no escritório da torre até o entardecer se espalhar pela cidade como sangue na
água. Fazia calor, mais do que tinha feito em todo o verão, e os telhados da Ribera
pareciam vibrar nos olhos como miragens de vapor. Desci para o andar de baixo e mudei
de roupa. A casa estava em silêncio, as persianas da galeria fechadas, e as vidraças,
tingidas por uma claridade âmbar que se derramava pelo corredor central.
— Isabella? — chamei.
Não obtive resposta. Aproximei-me da galeria e verifiquei que a moça tinha partido.
Antes de fazê-lo, no entanto, tinha se dedicado a limpar e organizar a coleção das obras
completas de Ignatius B. Samson, que estava acumulando poeira e esquecimento há anos
e agora reluzia na vitrine transparente da estante. A moça tinha pego um dos livros e
deixado aberto na metade sobre um móvel. Li uma frase ao acaso e tive a impressão de
que viajava para um tempo em que tudo parecia tão simples quanto inevitável.
"A poesia se escreve com lágrimas, o romance com sangue e a história com águas
passadas', disse o cardeal, enquanto untava o fio da faca com veneno, à luz de um
candelabro."
A estudada ingenuidade daquelas linhas me arrancou um sorriso e devolveu uma
suspeita que nunca deixou de rondar meus pensamentos: talvez tivesse sido melhor para
todos, sobretudo para mim, se Ignatius B. Samson nunca tivesse se suicidado e David
Martín nunca tivesse tomado o seu lugar.