O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 168

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Olhei-a com reprovação.— Se vou ser sua assistente, tenho que saber com quem costuma tratar. Quero dizer, para o caso em que tenha que mandar alguém passear. Bufei.— É um editor.— E deve ser dos bons. Veja só o papel de carta e os envelopes que distribui. Que livro está escrevendo para ele?— Nada que lhe interesse.— Como posso ajudá-lo se não me diz em que está trabalhando? Não, não precisa responder. Vou ficar calada. Durante dez milagrosos segundos, Isabella permaneceu calada.— Como é esse Sr. Corelli? Olhei para ela friamente.— Estranho.— Deus os cria e... bem, não vou dizer mais nada. Observando aquela moça de coração nobre, senti-me, se isso fosse possível, ainda mais miserável e compreendi que quanto antes a afastasse de mim, mesmo com o risco de magoá-la, melhor seria para ambos.— Por que está me olhando assim?— Vou sair esta noite, Isabella.— Preciso deixar alguma coisa para jantar? Vai voltar muito tarde?— Vou jantar fora e não sei quando voltarei, mas seja a que hora for, quando voltar não quero mais encontrá-la aqui. Quero que pegue suas coisas e vá embora. Para onde, não me interessa. Aqui não há lugar para você. Entendeu?
Seu rosto empalideceu e seus olhos se encheram de água. Mordeu os lábios e sorriu com as faces cheias de lágrimas.— Estou sobrando. Entendi.— E não limpe mais nada. Levantei e deixei-a sozinha na galeria. Fui me esconder no escritório da torre. Abri as janelas. O choro de Isabella na galeria chegava até lá. Contemplei a cidade estendida ao sol do meio-dia e voltei os olhos para o outro extremo, onde quase acreditei que via as telhas brilhantes que cobriam a Villa Helius e imaginei Cristina, esposa de Vidal, lá em cima, nas janelas do torreão, olhando para a Ribera. Algo escuro e turvo cobriu meu