O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 162
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
dos lamentos e súplicas de figuras obscuras que barravam minha passagem, implorando
que os levasse comigo, que os resgatasse de sua eterna escuridão.
Dois guardas me acordaram dando batidinhas em minha perna com o cassetete. Já
tinha anoitecido e levei alguns segundos para distinguir se eram agentes da ordem pública
ou da morte, em missão especial.
— Vamos, amigo, vá dormir a sesta na sua caminha, certo?
— Às suas ordens, meu coronel.
— Circulando ou vai passar a noite na cadeia, para ver se acha graça.
Não precisou repetir duas vezes. Levantei como pude e caminhei para casa com a
esperança de chegar antes que meus passos me guiassem para mais um botequim de
quinta. O trajeto, que em condições normais levaria dez ou 15 minutos, prolongou-se por
quase o triplo. Finalmente, numa volta milagrosa, cheguei à porta de minha casa para
encontrar, mais uma vez, Isabella sentada como se fosse alguma espécie de maldição,
dessa vez no alpendre de casa, esperando por mim.
— Está bêbado — disse Isabella.
— Devo estar, pois em pleno delirium tremens tive a impressão de vê-la à meia-noite,
dormindo na entrada da minha casa.
— Não tinha para onde ir. Meu pai e eu brigamos e ele me botou para fora de casa.
Fechei os olhos e suspirei. Meu cérebro embotado de álcool era incapaz de dar forma
à torrente de negativas e maldições que estavam se acumulando em minha língua.
— Não pode ficar aqui, Isabella.
— Por favor, só essa noite. Amanhã procuro uma pensão. Estou implorando, Sr.
Martín.
— Não me olhe com essa cara de bezerro desmamado — ameacei.
— Além do mais, estou na Rua por sua culpa — acrescentou.
— Por minha culpa. Essa é muito boa. Não sei se tem talento para escrever, mas
imaginação delirante você tem de sobra. Por que infausto motivo, se é que se pode saber,
seria culpa minha se o digníssimo senhor seu pai resolveu jogá-la no olho da Rua?
— Fala muito estranho quando está bêbado, Sr. Martín.
— Não estou bêbado. Nunca estive bêbado em toda a minha vida. Responda à
pergunta.
— Disse a meu pai que tinha me contratado como assistente e que, a partir de agora,
ia me dedicar à literatura e não poderia mais trabalhar no armazém.
— O quê?