O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 163
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Podemos entrar? Estou com frio e meu traseiro ficou petrificado de dormir nessa
escada.
Senti minha cabeça girar e a náusea rondando. Levantei os olhos para a suave
penumbra que emanava da clarabóia no alto da escada.
— É esse o castigo que os céus me mandaram para que me arrependa dessa vida de
devassidão?
Isabella seguiu o rastro de meu olhar, intrigada.
— Com quem está falando?
— Com ninguém, é um monólogo. Prerrogativa dos ébrios. Mas amanhã bem cedo
vou ter uma conversinha com seu pai e pôr um fim nesse absurdo.
— Não sei se é uma boa idéia. Meu pai jurou que se tiver o desplante de aparecer na
frente dele, vai matá-lo. Tem uma escopeta de dois canos escondida embaixo do balcão.
Ele é assim mesmo. Uma vez matou um burro com ela. Foi no verão, perto de Argentona...
— Cale-se. Nem mais uma palavra. Silêncio.
Isabella fez que sim e ficou me olhando, na expectativa. Recomecei a procura da
chave. Não dava para resolver as trapalhadas daquela adolescente tagarela agora.
Precisava cair numa cama e perder a consciência, de preferência nessa ordem. Procurei
por uns dois minutos, sem resultados visíveis. Finalmente, Isabella aproximou-se de mim
e, sem dizer uma palavra, enfiou a mão no bolso de minha jaqueta, pelo qual meus dedos
tinham passado cem vezes, e encontrou. Mostrou a chave e eu, derrotado, deixei.
Isabella abriu a porta da casa e me ajudou a levantar. Foi me escorando até o quarto,
como se fosse um inválido, e me ajudou a deitar na cama. Ajeitou minha cabeça no
travesseiro e tirou meus sapatos. Olhei para ela, ressabiado.
— Fique tranqüilo, não vou tirar suas calças.
Abriu os botões do colarinho e sentou a meu lado, observando-me. Sorriu com uma
melancolia que seus anos não mereciam.
— Nunca o tinha visto tão triste, Sr. Martín. É por causa dessa mulher, não? A da foto.
Segurou e acariciou minha mão, e eu fui relaxando.
Meus olhos encheram-se de lágrimas, mesmo a contragosto, e virei a cabeça para
que ela não visse meu rosto. Isabella apagou a luz da mesinha e continuou sentada a meu
lado, na penumbra, ouvindo aquele bêbado desconsolado chorar sem fazer perguntas,
sem julgamentos, sem nada além de sua companhia e sua bondade, até que adormeci.