PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Ia servir outro copo quando Sempere me interrompeu.— Prudência— murmurou.— Está vendo como é moralista?— Cada um é o que é.— Mas tem cura. O que me diz de eu e você cairmos, agora mesmo, na farra? Sempere me olhou com pena.— Martín, acho que é melhor ir para casa e descansar. Amanhã é outro dia.— Não vai contar a seu pai que tomei um porre, certo? A caminho de casa, parei em pelo menos sete bares para degustar seus estoques de destilados até que, com uma ou outra desculpa, me botavam na Rua e eu percorria mais 100 ou 200 metros atrás de um novo porto onde fazer escala. Nunca tinha sido um bebedor de fôlego e no fim da tarde estava tão bêbado que não me lembrava nem de onde morava. Lembro que dois garçons da taverna Ambos Mundos na praça Real me levantaram, cada um por um braço, e me colocaram num banco em frente ao chafariz, onde caí num sono espesso e escuro.
Sonhei que ia ao enterro de dom Pedro. Um céu ensangüentado oprimia o labirinto de cruzes e anjos que rodeava o grande mausoléu dos Vidal no cemitério de Montjuïc. Um cortejo silencioso, velado de negro, circundava o anfiteatro de mármore escurecido que formava o pórtico do mausoléu. Cada figura carregava um longo círio branco. A luz de cem chamas esculpia os contornos de um grande anjo de mármore abatido de dor e luto sobre um pedestal, aos pés do qual se estendia o túmulo de meu mentor e, em seu interior, um sarcófago de cristal. O corpo de Vidal, vestido de branco, jazia sob o cristal com os olhos abertos. Lágrimas negras escorriam por suas faces. No meio do cortejo, adiantava-se a silhueta de sua viúva, Cristina, que caía de joelhos diante do féretro, banhada em pranto. Um a um, os membros do cortejo desfilavam diante do defunto e depositavam rosas negras sobre o ataúde de cristal até cobri-lo inteiramente, deixando à mostra apenas o rosto. Dois coveiros sem rosto desciam o ataúde à fossa, cujo fundo estava inundado por um líquido espesso e escuro. O sarcófago ficava flutuando sobre o lençol de sangue, que lentamente se infiltrava pelas fendas do fecho de cristal. Pouco a pouco, o ataúde era inundado e o sangue cobria o cadáver de Vidal. Antes que seu rosto submergisse por completo, meu mentor movia os olhos e olhava para mim. Um bando de pássaros negros alçava vôo e eu saía correndo, perdendo-me nas vielas da infinita cidade dos mortos. Somente um pranto distante conseguia me guiar para a saída e permitia que me desviasse