O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 160

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Concordei lentamente. Levantamos e fomos para a saída, ladeando o balcão pelo extremo oposto à mesa de Vidal. Antes de abandonar a sala, ainda cruzamos com o maître, que nem se dignou a olhar para nós. Enquanto caminhávamos para a saída, pude ver pelo espelho pendurado em cima da porta que Vidal beijava Cristina nos lábios. Na Rua, Sempere filho olhou para mim, mortificado. — Sinto muito, Martín. — Não se preocupe. Má escolha. Isso é tudo. Se não se importa, seu pai não... —... nem uma palavra — garantiu. — Obrigado. — Eles não te merecem. O que me diz se o convidar para algo mais plebeu? Tem um restaurante na Rua do Carmen que é de dar água na boca. Meu apetite tinha sumido, mas concordei de bom grado. — Vamos. O lugar ficava perto da biblioteca e servia comida caseira a preços módicos para os moradores do bairro. Mal toquei na comida, que cheirava infinitamente melhor que qualquer coisa que tivesse comido na Maison Dorée em todos os seus anos de existência, mas na altura da sobremesa já tinha bebido, sozinho, uma garrafa e meia de tinto e minha cabeça tinha entrado em órbita. — Sempere, diga cá uma coisa. O que tem você contra melhorar a raça? Como se explica então que um cidadão jovem e são, abençoado pelo Altíssimo com uma pinta como a sua, não tenha se beneficiado com o que há de melhor em exposição? O filho do livreiro, riu. — E quem disse que não me beneficiei? Fiz um gesto de pouca fé e pisquei o olho. Sempere filho concordou. — Mesmo que me tome por moralista, gosto de imaginar que estou esperando. — Esperando o quê? Que o instrumental pare de funcionar? — Está falando igual ao meu pai. — Os homens sábios partilham pensamentos e palavras. — Pois eu acho que existe algo mais, não? — perguntou. — Algo mais? Sempere concordou. — Sei lá — disse eu. — Acho que sabe muito bem. — Pois pode ver que isso não me adiantou de nada.