O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 159

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Assim ficarei sabendo que desperdiçaram tempo e dinheiro. Ficarei por aqui, lendo, que a vida é breve.
Sempere filho era o paradigma da timidez e da discrição. Embora nos conhecêssemos desde meninos, não me lembrava de ter tido mais que três ou quatro diálogos a sós com ele, de não mais de cinco minutos cada. Não tinha nenhum vício ou pecado conhecido. Sabia de boa fonte que era considerado o bonitão oficial e o solteiro de ouro por todas as moçoilas do bairro. Mais de uma achava jeito de aparecer na livraria com uma desculpa qualquer e ficar parada na frente da estante, aos suspiros, mas o filho de Sempere, se é que notava alguma coisa, nunca deu um passo com intuito de dar seqüência àquelas promissórias de devoção e lábios entreabertos. Qualquer outro teria feito uma carreira estelar de conquistador com um décimo daquele capital. Qualquer um menos Sempere filho, a quem às vezes dava vontade de atribuir o título de carola.— Nesse ritmo, vai ficar a ver navios— lamentava Sempere de vez em quando.— Já tentou botar um bom punhado de pimenta na sopa dele para garantir a irrigação de certos pontos-chave?— perguntava eu.— Pode rir, moleque, mas eu já estou chegando aos 70 e nada de uma porra de um neto.
Fomos recebidos pelo mesmo maître da última visita, mas sem o sorriso servil nem o gesto de boas-vindas. Quando comuniquei que não tinha feito reserva, fez uma careta de desprezo e estalou os dedos para invocar a presença de um recepcionista que nos escoltou, sem cerimônia, a uma mesa que supus ser a pior do salão, ao lado da porta da cozinha e enterrada num canto escuro e barulhento. Nos 25 minutos seguintes, ninguém veio até a mesa, nem para oferecer o cardápio, nem para servir um copo d ' água. O pessoal passava ao largo batendo a porta e ignorando completamente nossa presença e nossos gestos tentando chamar atenção.
— Isso não quer dizer que seria melhor irmos embora?— perguntou Sempere filho, finalmente.— Eu me viro com um sanduíche em qualquer lugar...
Ele mal tinha acabado de pronunciar essas palavras quando os vi aparecer. Vidal e senhora avançavam até a mesa, escoltados pelo maître e por dois garçons que se desfaziam em mesuras. Sentaram-se e em dois minutos teve início a procissão de beijamãos na qual, um depois do outro, todos os comensais do salão iam cumprimentá-los. Vidal os recebia com graça divina e os despachava logo em seguida. Sempere filho, que percebeu a situação, me observava.
— Tudo bem, Martín? Por que não vamos embora?