O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 158
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
parede do fundo estava completamente coberta por um grande armário de carvalho.
Ajoelhei diante de uma caixa com velhas fotografias, óculos, relógios e pequenos objetos
pessoais. Comecei a remexer sem saber muito bem o que procurava. De repente, aban-
donei o projeto e suspirei. Se esperava averiguar alguma coisa, precisava de um plano.
Estava prestes a deixar o quarto, quando ouvi a porta do armário abrir-se, pouco a pouco,
atrás de mim. Um sopro de ar gelado e úmido roçou minha nuca. Virei lentamente. A porta
do armário estava entreaberta e, dentro dele, antigos vestidos e ternos carcomidos pelo
tempo pendiam dos cabides, ondulando como algas sob a água. A corrente de ar frio que
trazia aquele fedor vinha de lá. Levantei e caminhei lentamente até o guarda-roupa. Abri as
portas de par em par e separei as roupas penduradas com as mãos. A madeira do fundo
estava podre e tinha começado a descolar. Do outro lado, dava para perceber uma parede
de gesso, na qual alguém tinha aberto um furo de cerca de 2 centímetros. Inclinei-me para
tentar ver o que havia do outro lado, mas a escuridão era quase absoluta. A claridade
tênue do corredor penetrava no orifício e projetava um fio vaporoso de luz do outro lado.
Não se via muito mais que uma atmosfera espessa. Aproximei o olho tentando ver alguma
imagem do que havia do outro lado, mas naquele instante uma aranha negra apareceu na
boca do orifício. Retirei-me de súbito e a aranha apressou-se a trepar por entre as roupas,
desaparecendo na sombra. Fechei a porta do armário e saí do quarto. Tirei a chave e
guardei na primeira gaveta da cômoda que ficava no corredor. O fedor que antes estava
preso no quarto agora se espalhava pelo corredor como um veneno. Amaldiçoei a hora em
que tinha tido a idéia de abrir aquela porta e fui para a Rua, tentando esquecer, nem que
fosse por algumas horas, a escuridão que pulsava no coração daquela casa.
As más idéias nunca chegam desacompanhadas. Para comemorar o fato de ter
descoberto uma espécie de câmara escura em minha própria casa, fui até a livraria de
Sempere e Filhos com a idéia de convidá-los para jantar na Maison Dorée. Sempere pai lia
uma preciosa edição de O Manuscrito Encontrado em Saragosa, de Potocki, e não quis
nem ouvir falar do assunto.
— Se quisesse ver esnobes e grã-finos se fazendo de importantes e se aplaudindo
mutuamente, não precisaria pagar para isso, Martín.
— Não seja rabugento. Sou eu quem convido.
Sempere negou. Seu filho, que ouvia a conversa da soleira da porta dos fundos,
olhava para mim, hesitante.
— E se levar seu filho, o que vai fazer? Parar de falar comigo?