O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | страница 157

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 6 Talvez fosse o excesso de cafeína que corria em minhas veias ou apenas minha consciência que tentava voltar como a luz depois de um apagão, mas passei o resto da manhã virando e revirando uma idéia que podia ser qualquer coisa menos reconfortante. Era difícil acreditar que não houvesse uma conexão entre, primeiro, o incêndio no qual tinham perecido Barrido e Escobillas; segundo, a proposta de Corelli, de quem não tive mais notícias, o que me deixava com o pé atrás; e, por fim, aquele estranho manuscrito resgatado do Cemitério dos Livros Esquecidos e escrito, conforme suspeitava, entre aquelas mesmas quatro paredes. A perspectiva de retornar à casa de Andreas Corelli sem ter sido convidado para perguntar a respeito da coincidência que fez com que nossa conversa e o incêndio se produzissem praticamente no mesmo momento me parecia pouco atraente. Meu instinto dizia que, quando o editor resolvesse me ver, ele o faria por iniciativa própria e se havia algo que eu não tinha em relação àquele encontro inevitável, era pressa. A investigação do incêndio estava nas mãos do inspetor Victor Grandes e de seus cães de caça, Marcos e Castelo, em cuja lista de favoritos eu me considerava incluído com menção honrosa. Quanto mais distante me mantivesse deles, melhor seria. A única alternativa viável que restava era o manuscrito e sua relação com a casa da torre. Depois de anos dizendo a mim mesmo que o fato de ter ido morar justamente naquele lugar não era pura casualidade, a idéia começava a ganhar outro significado. Resolvi começar pelo lugar onde estava confinada a maior parte dos objetos e pertences que os antigos moradores da casa da torre tinham deixado para trás. Peguei a chave do último quarto do corredor na gaveta da cozinha, onde tinha passado os últimos anos. Desde que os empregados da companhia de eletricidade tinham ligado a instalação da casa, não voltei a entrar ali. Ao introduzir a chave na fechadura senti uma corrente de ar frio que o buraco do trinco soprava sobre meus dedos e constatei que Isabella tinha razão: aquele quarto tinha um cheiro estranho, que fazia pensar em flores mortas e terra revolvida. Abri a porta e levei a mão ao rosto. O fedor era intenso. Apalpei a parede procurando o interruptor da luz, mas a lâmpada nua que pendia do teto não respondeu. A claridade que vinha do corredor permitia que entrevisse a pilha de caixas, livros e baús que tinha confinado naquele lugar tantos anos antes. Aborrecido, fiquei olhando aquilo tudo. A