O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 155

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Isabella, se realmente pretende se dedicar a escrever, ou pelo menos a escrever para que os outros leiam, vai ter que se acostumar a ser ignorada, insultada, depreciada, às vezes, e a ser tratada com indiferença quase sempre. É uma das vantagens do ofício. Isabella baixou os olhos e respirou profundamente. — Não sei se tenho talento. Só sei que gosto de escrever. Ou melhor, preciso escrever. — Mentirosa. Levantou os olhos, encarando-me com dureza. — Muito bem. Tenho talento. E não me importa nem um pingo se pensa que não tenho. Sorri. — Isso já é bem melhor. Não poderia estar mais de acordo. Encarou-me, confusa. — Que tenho talento ou que pensa que não tenho? — O que você acha? — Então acha que tenho possibilidades? — Acho que tem talento e garra, Isabella. Mais do que pensa e menos do que espera. Mas existe muita gente com talento e garra e muitos não chegam a lugar algum. Isso é só o começo para se fazer qualquer coisa na vida. O talento natural é como a força de um atleta. Alguém pode nascer com maior ou menor capacidade, mas ninguém chega a ser um atleta simplesmente porque nasceu alto, forte ou rápido. O que faz o atleta, ou o artista, é o trabalho, o domínio do ofício e a técnica. A inteligência inata é simplesmente munição. Para chegar a fazer alguma coisa com ela é necessário transformar sua mente numa arma de precisão. — Por que a metáfora bélica? — Toda obra de arte é agressiva, Isabella. E a vida de todo artista é uma guerra, grande ou pequena, a começar pela luta contra as próprias limitações. Para chegar a qualquer lugar que deseje alcançar é preciso primeiro a ambição, depois o talento, o conhecimento e, finalmente, a oportunidade. Isabella considerou minhas palavras. — Costuma despejar esse discurso em cima de todo mundo ou acabou de lhe ocorrer? — O discurso não é meu. Foi despejado, como diz você, por alguém a quem fiz as mesmas perguntas que está me fazendo. Foi há muitos anos, mas não há um dia em que não perceba quanta razão ele tinha.