O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 154

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA quando, parava na frente do espelho e abria cortes nos braços e coxas com um caco de vidro, deixando cicatrizes como as que se podia imaginar sob as mangas de Isabella. Estava quase acabando quando senti que me encarava da porta da galeria. — O que foi? — Desculpe a interrupção, mas o que há no quarto que fica no fundo do corredor? — Nada. — Parece estranho. — Umidade. — Se quiser posso arrumar e... — Não. Esse quarto não é usado. E além do mais, não é minha empregada e não tem que limpar coisa alguma. — Só quero ajudar. — Ajude servindo outra xícara de café. — Por quê? Meu conto lhe dá sono? — Que horas são, Isabella? — Devem ser dez da manhã. — E isso significa que?... —... nada de sarcasmo antes do meio-dia — replicou Isabella. Sorri triunfante e estendi a xícara vazia, que ela pegou e foi para a cozinha. Quando voltou com o café fumegante, eu tinha acabado de ler a última página. Isabella sentou diante de mim. Sorri e degustei com calma o excelente café. Ela torcia as mãos e apertava os dentes, lançando olhares furtivos às folhas de seu conto, que eu tinha deixado viradas para baixo na mesa. Não aguentou mais de dois minutos sem abrir a boca. — E então? — disse finalmente. — Soberbo. Seu rosto se iluminou. — Meu conto? — O café. Olhou para mim, ferida, e levantou para pegar seus escritos. — Deixe onde estão — ordenei. — Para quê? É claro que não gostou e pensa que sou uma pobre idiota. — Não disse isso. — Não disse nada, o que é pior.