O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 153

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— A quarta é que não deve me chamar de Sr. Martín nem no dia do meu enterro. Devo parecer um fóssil para você, mas gosto de pensar que ainda sou jovem. Mais que isso, sou jovem, ponto final.— E como devo chamá-lo?— Pelo nome: David. A moça concordou. Abri a porta da casa e indiquei que entrasse. Isabella hesitou um instante e deu um pulinho para dentro.— Acho que tem um aspecto bem jovem para a sua idade, David. Olhei para ela, atônito.— Quantos anos acha que tenho? Isabella me olhou de baixo a cima, avaliando.— Por volta de trinta? Mas bem conservado, hein?— Faça o favor de calar a boca e trate de fazer um bom café com essa gororoba que trouxe.— Onde fica a cozinha?— Procure. Compartilhamos o delicioso café colombiano sentados na galeria. Isabella segurava sua xícara e me olhava de canto de olho enquanto eu lia as suas vinte páginas. Cada vez que virava uma página e levantava os olhos, encontrava seu olhar ansioso.— Se ficar aí me olhando como uma coruja, vou levar mais tempo para terminar.— O que quer que faça?— Não queria ser minha assistente? Pois comece. Procure alguma coisa que precisa de arrumação e trate de organizar, por exemplo. Isabella olhou ao redor.— Está tudo desarrumado.— O ditado não diz que se deve agarrar a ocasião pela careca? Isabella concordou e foi ao encontro do caos e da desordem que reinavam em minha casa com determinação militar. Ouvi seus passos afastando-se pelo corredor e continuei a ler. Seu relato mal tinha um fio narrativo. Falava, com uma sensibilidade afiada e palavras bem articuladas, das sensações e ausências que passavam pela mente de uma garota confinada num quarto frio de um lugar miserável no bairro da Ribera, do qual contemplava a cidade e o vaivém de sua gente nas vielas estreitas e escuras. As imagens e a música triste de sua prosa delatavam uma solidão que beirava o desespero. A garota do conto passava as horas aprisionada em seu mundo e, de quando em