O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 152
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Ao voltar para casa, apenas uma hora depois, encontrei-a sentada em meu portão,
esperando com algo nas mãos que supus que fossem seus escritos. Quando me viu,
levantou e forçou um sorriso.
— Disse para deixar na caixa de correio — disse eu. Isabella fez que sim, mas deu de
ombros.
— Como agradecimento trouxe um pouco de café da loja de meu pai. É colombiano.
Muito bom. E o café não entrava na caixa de correio, de modo que achei que seria melhor
esperá-lo.
Uma desculpa daquelas só podia ocorrer a uma romancista em potencial. Suspirei e
abri o portão.
— Entre.
Subi as escadas com Isabella alguns degraus atrás de mim como um cachorrinho
festeiro.
— Sempre leva tanto tempo para tomar o café-da-manhã? Não é que me importe,
claro, mas como já estava aqui há 45 minutos, esperando, comecei a me preocupar, quer
dizer, não é possível que, quando finalmente encontro um escritor de carne e osso, ele
resolva morrer entalado. Com a sorte que tenho, não seria estranho se ficasse entalado
com uma azeitona e daí, pronto, fim da minha carreira literária — metralhou a moça.
Parei no meio da escada e olhei para ela com a expressão mais hostil que consegui
fazer.
— Isabella, para que as coisas funcionem entre nós, vamos ter que fixar uma série de
regras. A primeira é que quem faz perguntas sou eu, e você se limita a responder. Quando
não houver perguntas de minha parte, da sua não haverá respostas nem discursos
espontâneos. A segunda regra é que levo tanto tempo para tomar meu café, almoçar ou
pensar na morte da bezerra quanto me der na telha e isso não deve ser motivo de
discussão.
— Não pretendia ofendê-lo. Posso entender que uma digestão lenta ajuda a
inspiração.
— A terceira regra é que não vou tolerar sarcasmos antes do meio-dia. Certo?
— Sim, Sr. Martín.