O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 151
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Nada. Mas quatro olhos sempre vêem mais do que dois. E também posso cuidar da
correspondência, dos recados, ajudar a encontrar documentação. E além disso, sei
cozinhar e posso...
— Está pedindo um emprego como assistente ou como cozinheira?
— Estou pedindo uma oportunidade.
Isabella baixou os olhos. Não pude evitar um sorriso. Aquela criatura curiosa me
despertava simpatia, mesmo a contragosto.
— Vamos fazer uma coisa. Traga as melhores vinte páginas que escreveu, as que, na
sua opinião, demonstram melhor o que sabe fazer. Não traga nem uma a mais porque não
vou ler. Vou examiná-las com calma e, conforme for, conversaremos.
Seu rosto iluminou-se e por um instante aquele véu de dureza e tensão que enrijecia
suas feições desapareceu.
— Não vai se arrepender — disse.
Levantou o olhar para mim nervosamente.
— Posso levá-las à sua casa?
— Deixe na caixa de correio. Isso é tudo?
Fez que sim várias vezes e foi se retirando com aqueles passos curtos e nervosos que
a sustentavam. Quando estava prestes a se virar e sair correndo, eu a chamei.
— Isabella?
Olhou para mim, solícita, o olhar nublado por uma súbita inquietação.
— Por que eu? — perguntei. — E não venha me dizer que sou seu autor preferido e
todas as bajulações com as quais Sempere mandou que me enrolasse, porque se fizer
isso, essa será a primeira e última conversa que teremos.
Isabella hesitou um segundo. Lançou um olhar direto e franco e respondeu sem
condescendências.
— Porque é o único escritor que conheço.
Sorriu assustada e partiu com seu caderno, seu passo incerto e sua sinceridade.
Observei-a dobrar a esquina da Rua Mirallers e sumir atrás da catedral.