O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 150

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
A imagem da menina que trouxe durante tanto tempo minha encomenda do armazém me veio à memória e diluiu-se no rosto mais adulto e ligeiramente mais anguloso daquela Isabella mulher de formas suaves e olhar de aço.
— A menina da gorjeta— disse, embora lhe restasse pouco ou quase nada da menina. Isabella concordou.— Sempre me perguntei o que faria com todas aquelas moedas.— Comprava livros na Sempere e Filhos.— Se eu soubesse...— Se estou incomodando, posso ir embora...— Não está. Quer beber alguma coisa? A moça negou.— O Sr. Sempere diz que você tem talento. Isabella deu de ombros e respondeu com um sorriso cético.— Em geral, quanto mais talento tem, mais a pessoa duvida que o tenha realmente— disse eu.— E o inverso também.— Então devo ser um prodígio— replicou Isabella.— Bem vinda ao clube. Mas diga lá, o que posso fazer por você? Isabella inspirou profundamente.— O Sr. Sempere disse que poderia pelo menos ler alguma coisa minha e dar sua opinião ou algum conselho. Olhei-a nos olhos durante alguns segundos sem responder. Sustentou meu olhar sem pestanejar.— Isso é tudo?— Não.— Era o que pensava. Qual é o capítulo dois? Isabella hesitou apenas um instante.— Se gostar do que leu e pensar que tenho possibilidades, gostaria de pedir que permitisse que fosse sua assistente.— E o que a faz pensar que preciso de uma assistente?— Posso organizar seus papéis, datilografar, corrigir erros e falhas...— Erros e falhas?— Não pretendia insinuar que comete erros e falhas...— E o que pretendia insinuar, então?