PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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À primeira vista, era uma coleção de textos e preces que não tinha sentido algum. O volume era um original, um apanhado de páginas datilografadas e encadernadas em couro sem muito requinte. Continuei a ler e logo comecei a intuir um certo método na seqüência de eventos, cantos e reflexões que pontuavam o texto. A linguagem tinha sua própria cadência e o que, de início, parecia ser uma completa ausência de estrutura ou estilo revelava pouco a pouco um canto hipnótico que ia, lentamente, envolvendo e mergulhando o leitor num estado intermediário entre torpor e esquecimento. O mesmo acontecia com o conteúdo, cujo eixo central não ficava claro até bem depois do início da primeira seção ou canto, pois a obra parecia estruturada à maneira dos velhos poemas compostos em épocas nas quais o tempo e o espaço evoluíam a seu bel-prazer. Foi então que percebi que Lux Aeterna era, na falta de palavras melhores, uma espécie de livro dos mortos.
Passadas as primeiras trinta ou quarenta páginas, de rodeios e adivinhas, o leitor penetrava num preciso e extravagante quebra-cabeças de orações e súplicas cada vez mais inquietantes, na medida em que a morte, descrita em versos de métrica duvidosa às vezes como um anjo branco com olhos de réptil, às vezes como um menino luminoso, era apresentada como uma divindade única e onipresente que se manifestava na natureza, no desejo e na fragilidade da existência.
Quem quer que fosse aquele enigmático D. M., em seus versos a morte se manifestava como uma força voraz e eterna. Uma mistura bizantina de referências a diversas mitologias de paraísos e infernos retorcia-se aqui num único plano. Segundo D. M., só havia um princípio e um fim, um só criador e destruidor, que se apresentava sob diferentes nomes para confundir os homens e tentar sua debilidade, um único Deus cujo verdadeiro rosto estava dividido em duas metades: uma, doce e piedosa; a outra, cruel e demoníaca.
Minhas deduções avançaram até aí, pois, além desses princípios, o autor parecia ter perdido o rumo de sua narrativa e mal se conseguia decifrar as referências e imagens que povoavam o texto na condição de visões proféticas. Tempestades de sangue e fogo precipitando-se sobre cidades e aldeias. Exércitos de cadáveres percorrendo planícies infinitas e arrasando a vida à sua passagem. Infantes enforcados com farrapos de bandeiras nas portas das fortalezas. Mares negros onde milhares de almas penadas flutuavam suspensas por toda a eternidade sob águas geladas e envenenadas. Nuvens de cinzas e oceanos de ossos e carnes putrefatas infestadas de insetos e serpentes. A sucessão de estampas infernais e nauseabundas continuava à exaustão.