O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 146
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
O inspetor olhou-me longamente e em seguida fez que sim.
— Tudo parece indicar que alguém derramou gasolina no Sr. Barrido e ateou fogo. As
chamas se propagaram, quando ele, tomado pelo pânico, tentou escapar do escritório. Seu
sócio e um outro empregado que acudiu para ajudá-lo foram envolvidos pelo fogo.
Engoli em seco. Grandes deu um sorriso tranqüilizador.
— O advogado dos editores comentou comigo hoje à tarde que, dada a vinculação
pessoal estabelecida no contrato que assinou, com o falecimento dos contratantes, ele
perde a validade, embora seus herdeiros mantenham os direitos sobre as obras publicadas
anteriormente. Acredito que vai lhe escrever uma carta informando-o de tudo, mas pensei
que gostaria de saber antes, caso precise tomar alguma decisão a respeito da proposta do
editor que mencionou.
— Obrigado.
— Não há de quê.
Grandes acabou seu cigarro e jogou a guimba no chão. Sorriu, afável, e levantou. Deu
uma palmada em meu ombro e afastou-se na direção da Rua Princesa.
— Inspetor! — chamei.
Grandes parou e virou para mim.
— Não estará pensando?...
Ele lançou um sorriso cansado.
— Cuide-se, Martín.
Fui dormir cedo e acordei de repente, pensando que já estava no dia seguinte para
comprovar em seguida que era um pouco mais de meia-noite.
Tinha sonhado com Barrido e Escobillas encurralados em seu escritório. As chamas
subiam por suas roupas e cobriam cada centímetro de seus corpos. Por trás da roupa, a
pele caía em tiras e os olhos, arregalados de pavor, explodiam por causa do fogo. Seus
corpos estremeciam em espasmos de agonia e terror até caírem por cima dos escombros,
com a carne se desprendendo dos ossos como cera fundida e formando um charco
fumegante a meus pés, onde meu rosto se refletia, sorrindo ao mesmo tempo em que
soprava o fósforo que tinha entre os dedos.
Levantei para pegar um copo d'água e, supondo que já tinha escapado das garras do
sonho, subi para o escritório e tirei da gaveta da escrivaninha o livro que tinha pego no
Cemitério dos Livros Esquecidos. Acendi a luminária e torci a haste que segurava a
lâmpada para que o foco caísse diretamente no livro. Abri a primeira página e comecei a
ler Lux Aeterna D.M.