O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 148

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA À medida que passava as páginas, tive a impressão de que percorria passo a passo o mapa de uma mente doente e alquebrada. Linha a linha, o autor daquelas páginas ia documentando sem saber seu próprio mergulho num abismo de loucura. O último terço do livro parecia ser uma tentativa de desfazer o caminho, um pedido desesperado de ajuda, vindo de dentro da prisão da insanidade, para tentar escapar do labirinto de túneis abertos por sua própria mente. O texto morria no meio de uma frase de súplica, numa interrupção brusca, sem explicação alguma. Quando cheguei a esse ponto, minhas pálpebras fechavam. Da janela, chegava uma brisa leve vinda do mar que varria a névoa dos telhados. Estava prestes a fechar o livro quando percebi que alguma coisa tinha ficado retida no filtro de minha mente, algo que tinha a ver com a composição mecânica daquelas páginas. Voltei ao início e comecei a repassar o texto. Encontrei a primeira mostra na quinta linha. A partir daí, a mesma marca aparecia a cada duas ou três linhas. Uma das letras, o S maiúsculo, sempre aparecia levemente caída para a direita. Extraí uma página em branco da gaveta e botei no tambor da Underwood que havia no escritório. Escrevi uma frase ao acaso. Soam os sinos de Santa María del Mar. Retirei a folha e examinei à luz da lâmpada. Soam... de Santa María Suspirei. Lux Aeterna tinha sido escrito naquela mesma máquina de escrever e, supus, naquela mesma escrivaninha.