PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Espero que tenha me incluído no um por cento restante ou terei que considerar que minha vaidade está sendo pisoteada e apunhalada à traição.— Era onde eu queria chegar. Isabella adora você.— Adora? A mim?— Sim, como se fosse a Virgem Negra de Montserrat e o Menino Jesus ao mesmo tempo. Leu A Cidade dos Malditos de cabo a rabo, dez vezes. E quando lhe dei Os Passos do Céu, disse que morreria tranqüila se conseguisse escrever um livro assim.— Isso está me cheirando a cilada.— Já sabia que ia tentar escapulir.— Não vou escapulir. Mas ainda não me disse qual é o favor.— Imagine. Suspirei. Sempere estalou a língua.— Falei que não ia gostar.— Pode pedir qualquer outra coisa.— Só precisa falar com ela. Estimular, aconselhar... Ouvir, ler alguma coisa e dar uma orientação. Não vai custar tanto assim. A menina é rápida como uma bala. É perfeita para você. Ficarão amigos. E pode trabalhar como sua assistente.— Não preciso de assistente. E menos ainda de uma desconhecida.— Bobagem. E além do mais conhecer, você já conhece. É o que ela diz. Diz que o conhece há anos, mas que com certeza não vai se lembrar. O problema é que os pais são dois carolas e estão convencidos de que essa história de literatura só vai levá-la ou ao inferno ou à solteirice mundana, e hesitam entre enfiá-la num convento e casá-la com algum cretino que lhe dê oito filhos, enterrando-a para sempre entre mamadeiras e caçarolas. Se não fizer alguma coisa para salvá-la, é quase um assassinato.— Deixe de drama, Sr. Sempere.— Olhe, não ia lhe pedir pois sei que é tão chegado ao altruísmo quanto a dançar ciranda, mas cada vez que a vejo entrar e me olhar com aqueles olhinhos cheios de inteligência e disposição e penso no futuro que a espera, meu coração fica apertado. Tudo o que podia lhe ensinar, já ensinei. A menina aprende rápido, Martín. E se me lembra alguém, é você quando garoto. Suspirei.— Isabella de quê?— Gispert. Isabella Gispert.