O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 143

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Já soube de Barrido e Escobillas? — perguntou o livreiro. — Estou vindo de lá. Difícil de acreditar... — Quem poderia adivinhar? Não que tivesse grande simpatia por eles, mas daí a isso... Mas e então? Como você fica nisso tudo, para efeitos legais? Desculpe perguntar assim sem rodeios. — Na verdade, ainda não sei. Acho que os dois sócios eram detentores da titularidade da empresa. Suponho que existam herdeiros, mas, se ambos morrerem, é provável que a sociedade se dissolva, junto com o meu vínculo com ela. É o que eu acho. — Ou seja, se Escobillas, que Deus me perdoe, também bater as botas, você é um homem livre. Concordei. — Grande dilema... — murmurou o livreiro. — Seja o que Deus quiser — arrisquei. Sempere fez que sim, mas percebi que alguma coisa o inquietava e que preferia mudar de assunto. — Enfim... O caso é que veio a calhar que tenha passado por aqui, porque preciso lhe pedir um favor. — O senhor manda. — Vou logo avisando que não vai gostar. — Se gostasse não seria um favor, seria um prazer. E como é para o senhor, será um prazer. — Na verdade não é para mim. Vou dizer e você resolve. Sem compromisso, certo? Sempere se apoiou no balcão e adotou aquele ar de contador de histórias que me trazia tantas recordações da infância passada naquela loja. — É uma moça, Isabella. Deve ter 17 anos. Cheia de vida. Vem sempre aqui e eu lhe empresto alguns livros. Diz que quer ser escritora. — Parece que já ouvi esse história — disse eu. — O caso é que me entregou uma de suas histórias há uma semana. Quase nada, vinte ou trinta páginas, e pediu minha opinião. — E? Sempere baixou a voz, como se estivesse me confidenciando um segredo de confissão. — Magistral. Melhor do que 99 por cento do que tem sido publicado nos últimos vinte anos.