O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 140
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Grandes concordou com ar solene.
— Enjôos, dores de cabeça... — completei.
— Mas seria razoável presumir que já está bem melhor, não?
— Sim. Bem melhor.
— Fico feliz. A verdade é que está com uma aparência invejável. Não acham?
Castelo e Marcos concordaram lentamente.
— Qualquer um diria que tirou um grande peso das costas — analisou Grandes.
— Não entendi.
— Estou falando dos enjôos e indisposições.
Grandes manejava aquela farsa com um domínio do tempo exasperante.
— Desculpe minha ignorância a respeito dos pormenores de seu ambiente de trabalho,
Sr. Martín, mas não é verdade que tinha um contrato assinado com os dois editores que
não terminaria antes de seis anos?
— Cinco.
— Mas esse contrato não o vinculava, por assim dizer, com exclusividade, à editora de
Barrido e Escobillas?
— Sim, eram esses os termos.
— Então por que motivo estaria discutindo uma proposta da concorrência se seu
contrato o impedia de aceitá-la?
— Era uma simples conversa. Nada mais.
— Sim, mas aconteceu num jantar na casa desse cavalheiro.
— Meu contrato não me impede de falar com terceiros. Nem de passar a noite fora.
Sou livre para dormir onde bem entender e falar com quem quiser, sobre o que quiser.
— Claro. Não pretendia insinuar o contrário, mas obrigado por esclarecer esse ponto.
— Posso esclarecer mais alguma coisa?
— Só um pequeno detalhe. Supondo que o Sr. Escobillas, que Deus não permita, não
se recupere de seus ferimentos e venha a falecer, assim como o Sr. Barrido, a editora
ficaria dissolvida e o mesmo aconteceria com seu contrato. Estou enganado?
— Não tenho certeza. Não conheço exatamente os estatutos que regiam a empresa.
— Mas é provável que seja assim, não acha?
— É. Mas deveria perguntar ao advogado dos editores.
— Na verdade, já perguntei. Ele confirmou que, se ocorrer o que ninguém deseja e o
Sr. Escobillas passar desta para a melhor, é isso que vai acontecer.
— Então já tem a sua resposta.