O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 131

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
olhava com ternura e que tinha o mesmo rosto que eu tinha no dia em que mataram meu pai.
Vi o fio do bisturi descendo nas trevas líquidas e senti que o metal fazia um corte em minha testa. Não senti dor. Senti que algo emanava do corte e vi que uma nuvem negra sangrava lentamente da ferida e se espalhava na água. O sangue subia em espiral até as luzes, como fumaça, e se contorcia em formas mutantes. Olhei para o menino, que me sorria e segurava minha mão com força. Foi então que notei. Algo se movia dentro de mim. Algo que, até aquele momento, estava apertado como uma tenaz ao redor do meu cérebro. Senti que algo se retirava, como uma ponta cravada até a medula que fosse extraída com pinças. Senti pânico e quis levantar, mas estava imobilizado. O menino me olhava nos olhos e balançava a cabeça afirmativamente. Achei que ia desmaiar, ou despertar, e foi então que a vi. Eu a vi refletida nas luzes sobre a mesa da sala de cirurgia. Um par de filamentos negros surgiam de dentro da ferida, deslizando sobre minha pele. Era uma aranha negra do tamanho de um punho. Correu sobre meu rosto e, antes que conseguisse saltar da mesa, um dos cirurgiões espetou-a com o bisturi. Levantou-a sob a luz para que pudesse vê-la. A aranha agitava as patas e sangrava contra as luzes. Uma mancha branca cobria sua carapaça e sugeria uma silhueta de asas abertas. Um anjo. De repente, suas patas ficaram imóveis e seu corpo se desprendeu. Ficou flutuando e, quando o menino ergueu a mão para tocá-la, a aranha se desfez em pó. Os médicos soltaram minhas amarras e afrouxaram o mecanismo que apertava meu crânio. Com a ajuda deles fiquei sentado na maca e botei a mão na testa. A ferida estava se fechando. Quando voltei a olhar a meu redor, percebi que estava sozinho.
As luzes da sala de cirurgia apagaram-se e tudo ficou na penumbra. Voltei até a escada e subi os degraus que me levaram de volta à sala da casa. A luz do amanhecer penetrava na água e atingia mil partículas em suspensão. Estava cansado. Mais cansado do que jamais tinha estado em toda a minha vida. Arrastei-me até a poltrona e deixei-me cair. Meu corpo desmoronou lentamente e, ao ficar finalmente em repouso sobre a poltrona, pude ver que uma trilha de pequenas borbulhas começava a correr pelo teto. Uma pequena câmara de ar se formou no alto e compreendi que o nível da água começava a baixar. A água, densa e brilhante como gelatina, escapava pelas fendas das janelas aos borbotões, como se a casa fosse um submarino emergindo das profundezas. Fui me encolhendo na poltrona, entregue a uma sensação de ausência de gravidade e de paz que não desejava abandonar nunca mais. Fechei os olhos e vislumbrei uma chuva de