O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 132

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA gotas que caíam muito lentamente do alto, como lágrimas que podiam parar bruscamente. Estava cansado, muito cansado e só desejava dormir profundamente. Abri os olhos à intensa claridade de um meio-dia cálido. A luz caía como poeira das janelas. A primeira coisa que vi foi que os cem mil francos continuavam em cima da mesa. Levantei e aproximei-me da janela. Abri os cortinados e um raio de claridade ofuscante inundou a sala. Barcelona continuava lá, ondulando como uma miragem de calor. Foi então que percebi que o zumbido em meus ouvidos, que os ruídos do dia costumavam mascarar, tinha desaparecido por completo. Ouvi um silêncio intenso, puro como água cristalina, que não lembrava de ter experimentado antes. Ouvi a mim mesmo rindo. Levei as mãos à cabeça e apalpei a pele. Não senti pressão alguma. Minha visão era clara, era como se meus cinco sentidos tivessem acabado de despertar. Pude sentir o cheiro da madeira velha dos ornamentos de tetos e colunas. Saí em busca de um banheiro ou de algum outro quarto onde houvesse um espelho para verificar se não tinha acordado no corpo de um estranho, se aquela pele e aqueles ossos eram os meus. Todas as portas da casa estavam trancadas. Percorri o andar inteiro sem conseguir abrir nenhuma delas. Voltei para a sala e vi que, onde eu tinha sonhado uma porta que conduzia ao porão, havia apenas um quadro com a imagem de um anjo encolhido sobre si mesmo numa rocha que despontava num lago infinito. Dirigi-me à escada que levava aos andares superiores, mas assim que percorri os primeiros degraus, parei. Uma escuridão pesada e impenetrável se estendia depois do ponto alcançado pela claridade. — Sr. Corelli? — chamei. Minha voz se perdeu como se tivesse batido em algo sólido, sem deixar eco ou reflexo algum. Voltei à sala e fiquei observando o dinheiro na mesa. Cem mil francos. Peguei o dinheiro e senti seu peso. O papel se deixava acariciar. Enfiei-o no bolso e penetrei de novo no corredor que conduzia à saída. As dezenas de rostos dos retratos continuavam a me olhar com a intensidade de uma promessa. Preferi não enfrentar aqueles olhares e fui direto para a saída, mas, justo antes de sair, percebi que entre todas as molduras havia uma vazia, sem inscrição nem fotografia. Senti um cheiro doce e apergaminhado e percebi que vinha de meus dedos. Era o perfume do dinheiro. Abri a porta principal e saí para a luz do dia. A porta se fechou pesadamente às minhas costas. Virei para contemplar a casa, escura e silenciosa, alheia à claridade radiante daquele dia de céu azul e sol resplandecente. Consultei meu relógio e verifiquei que já passava da uma da tarde. Tinha dormido mais de 12 horas seguidas numa velha poltrona e, no entanto, nunca tinha me sentido melhor em toda a minha vida. Caminhei colina abaixo de volta à cidade com um