O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 130

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 25 Sonhei que a casa estava mergulhando lentamente. No princípio, pequenas lágrimas de água escura começaram a brotar dos espaços entre as lajotas, das paredes, dos relevos do teto, das esferas das lâmpadas, dos orifícios das fechaduras. Era um líquido frio que escorria lenta e pesadamente, como gotas de mercúrio, e ia formando, paulatinamente, um manto que cobria o chão e escalava as paredes. Sentia que a água cobria meus pés e ia subindo muito rapidamente. Permaneci na poltrona, vendo que o nível da água cobria minha garganta e, em apenas alguns segundos, chegava até o teto. Sentia-me flutuar e pude ver que luzes pálidas ondulavam atrás das janelas. Eram figuras humanas suspensas, elas também, naquela penumbra aquosa. Fluíam arrastadas pela corrente e estendiam as mãos para mim, mas não podia ajudá-las e a água as arrastava sem remédio. Os cem mil francos de Corelli flutuavam a meu redor, ondulando como peixes de papel. Atravessei a sala e fui até uma porta fechada que havia no outro extremo. Um fio de luz emergia da fechadura. Abri a porta e vi que dava para uma escada que mergulhava até as profundezas da casa. Desci. O final da escada se abria para uma sala oval em cujo centro podia distinguir um grupo de pessoas reunidas num círculo. Ao perceberem minha presença, viraram-se e vi que estavam vestidas de branco e usavam máscaras e luvas. Intensas luzes brancas ardiam sobre o que me pareceu ser uma mesa de cirurgia. Um homem cujo rosto não tinha feições nem olhos arrumava instrumentos cirúrgicos sobre uma bandeja. Uma das figuras estendeu a mão para mim, para que me aproximasse. Fui até lá e senti que seguravam minha cabeça e meu corpo e me acomodavam sobre a mesa. As luzes me cegavam, mas consegui ver que eram todos idênticos e tinham o rosto do Dr. Trías. Ri silenciosamente. Um dos médicos segurava uma seringa nas mãos e injetou alguma coisa em meu pescoço. Não senti nenhuma picada, apenas uma agradável sensação de atordoamento e quentura espalhando-se pelo corpo. Dois dos médicos colocaram minha cabeça sobre um imobilizador e começaram a ajustar a coroa de parafusos que sustentava uma placa acolchoada na ponta do mecanismo. Senti que prendiam meus braços e pernas. Não ofereci nenhum tipo de resistência. Quando todo o meu corpo estava imobilizado dos pés à cabeça, um dos médicos estendeu um bisturi para um de seus gêmeos e ele se inclinou sobre mim. Senti que alguém tocava minha mão e a segurava. Era um menino que me