O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 122

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Naquele momento, um lampejo de claridade ganhou e iluminou as caras lupinas dos três animais, que pararam bruscamente. Olhei por cima do ombro e pude ver a elevação que se erguia a meia centena de metros da entrada do parque. As luzes da casa estavam acesas, as únicas em toda a colina. Um dos animais emitiu um grunhido surdo e retirou-se para o fundo do parque. Os outros o seguiram em alguns instantes.
Sem pensar duas vezes, encaminhei-me em direção à casa. Tal como tinha dito Corelli em seu convite, o casarão se erguia na esquina da Rua Olot com San José de la Montaña. Era uma estrutura esbelta e angulosa de três andares, em forma de torre coroada de mansardas, contemplando como uma sentinela a cidade e o parque fantasmagórico a seus pés.
A casa ficava no final de uma ladeira íngreme e de uma escada que levava à sua porta. Halos de luz dourada emanavam de suas janelas. À medida que subia a escada de pedra, comecei a distinguir uma silhueta recortada num parapeito do segundo andar, imóvel como uma aranha estendida em sua rede. Cheguei ao último degrau e parei para recuperar o fôlego. A porta principal estava entreaberta e uma lâmina de luz estendia-se até os meus pés. Aproximei-me devagar e parei na soleira. Um cheiro de flores mortas exalava do interior. Com os nós dos dedos, bati na porta, que cedeu alguns centímetros para dentro. Diante de mim havia um saguão e um longo corredor que penetrava na casa. Detectei um som seco e repetitivo, como de uma portinhola batendo contra a janela com o vento, vindo de algum lugar da casa e que lembrava as batidas de um coração. Penetrei alguns passos no hall e vi que, à minha esquerda, encontravam-se as escadas que subiam para o alto da torre. Pensei ter ouvido passos, passos de criança, escalando os últimos andares.— Boa noite— chamei. Antes que o eco de minha voz se perdesse no corredor, o som percussivo que pulsava em algum lugar da casa parou. Um silêncio absoluto desceu a meu redor e uma corrente de ar gelado acariciou meu rosto.— Sr. Corelli? É Martín. David Martín... Como não obtive resposta, aventurei-me pelo corredor que avançava para o interior da casa. As paredes estavam cobertas de fotografias emolduradas, de diversos tamanhos; pelas poses e roupas dos personagens, supus que a maioria dos retratos tinha pelo menos vinte a trinta anos. Embaixo de cada moldura havia uma plaqueta com o nome do retratado e o ano em que a foto tinha sido batida. Estudei aqueles rostos que me observavam de outra época. Crianças e velhos, damas e cavalheiros. Todos unidos pela sombra da