O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 121
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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O táxi subia lentamente até as fronteiras do bairro de Gracia, rumo ao solitário e
sombrio recinto do Parque Güell. A colina surgia pontilhada de casarões que já tinham
visto dias melhores, despontando por entre um arvoredo que balançava vento como água
negra. Vislumbrei a grande porta da cerca, bem no alto da ladeira. Três anos atrás, quando
da morte de Gaudí, os herdeiros do conde Güell tinham vendido à prefeitura aquela
propriedade deserta, que nunca teve outro morador senão seu arquiteto, por uma peseta.
Esquecido e abandonado, o jardim de colunas e torres agora fazia pensar num paraíso
maldito. Pedi ao motorista que parasse diante das grades da entrada e paguei a corrida.
— Tem certeza de que quer ficar aqui? — perguntou o motorista, apreensivo. — Se
quiser, posso esperar alguns minutos...
— Não será necessário.
O murmúrio do táxi perdeu-se colina abaixo e fiquei a sós com o eco do vento entre as
árvores. A tempestade se arrastava na entrada do parque e rodopiava aos meus pés.
Aproximei-me das grades, fechadas por correntes corroídas de ferrugem, e examinei o
interior. A luz da lua lambia o contorno da silhueta de dragão que dominava a escadaria.
Uma forma escura descia os degraus muito lentamente, observando-me com olhos que
brilhavam como pérolas sob a água. Era um cão negro. O animal parou ao pé das escadas
e só então percebi que não estava sozinho. Outros dois animais me observavam em
silêncio. Um tinha se aproximado sorrateiramente pela sombra projetada pela casa do
guarda, localizada de um lado da entrada. O outro, o maior dos três, tinha subido no muro
e me encarava da borda, por volta de 2 metros. O vapor de seu hálito destilava-se entre os
caninos expostos. Retirei-me lentamente, sem tirar os olhos dos dele e sem virar as
costas. Passo a passo, cheguei à calçada oposta à entrada. O outro cão também tinha
trepado no muro e me seguia com os olhos. Examinei o chão em busca de algum galho ou
pedra que pudesse utilizar como defesa se resolvessem pular e atacar, mas tudo o que vi
foram folhas secas. Sabia que, se desviasse os olhos e saísse correndo, os animais me
fariam caça e não conseguiria percorrer nem 20 metros antes que me alcançassem e me
despedaçassem. O maior deles adiantou-se alguns passos sobre o muro e tive certeza de
que ia pular. O terceiro, o único que vi no início e que provavelmente atuava como batedor,
começou a escalar a parte baixa do muro para juntar-se aos outros dois. Lá vou eu,
pensei.