O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 118
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
muito se pudesse me acompanhar, caso não tenha compromisso prévio, num jantar, na
próxima sexta-feira, 13, desse mês, às 10 horas da noite, em uma pequena casa que
aluguei para minha estadia em Barcelona. A casa fica na esquina das Ruas Olot e San
José de la Montaña, junto à entrada do Parque Güell. Confio e desejo que lhe seja possível
comparecer.
Seu amigo,
A NDREAS C ORELLI
Deixei o bilhete cair no chão e arrastei-me até a galeria. Lá, estendi-me num sofá,
abrigado pela penumbra. Faltavam sete dias para o encontro. Sorri com meus botões. Não
pensava que fosse viver sete dias. Fechei os olhos e tentei conciliar o sono. Aquele apito
constante nos ouvidos parecia mais estrondoso que nunca. Pontadas de luz branca
acendiam-se em minha mente com cada batida do coração.
Não poderá nem pensar em escrever.
Abri os olhos de novo e examinei a penumbra azul que velava a galeria. Junto a mim,
na mesa, ainda repousava o velho álbum de fotografias que Cristina tinha deixado. Não
tive coragem de jogá-lo fora, nem mesmo de tocá-lo. Estiquei a mão e abri o álbum. Fui
passando as páginas até encontrar a imagem que procurava. Arranquei-a do papel e
examinei. Cristina, ainda menina, caminhando pela mão de um estranho por aquele cais
que penetrava no mar. Apertei a fotografia contra o peito e abandonei-me ao cansaço.
Lentamente, a amargura e a raiva daquele dia, daqueles anos, foram se apagando e fui
envolvido por uma cálida escuridão cheia de vozes e mãos que me esperavam.
Desejei perder-me nela como nunca tinha desejado nada na vida, mas algo me puxou
e uma punhalada de luz e dor me arrancou daquele sonho prazeroso que prometia não ter
fim.
Ainda não — sussurrou a voz —, ainda não.
Soube que os dias passavam porque, de quando em quando, despertava e tinha a
impressão de ver a luz do sol atravessando as lâminas dos postigos das janelas. Em várias
ocasiões, pensei que ouvia batidas na porta e vozes que chamavam meu nome e que, de
repente, sumiam. Horas ou dias depois, levantei e quando levei as mãos ao rosto encontrei
sangue nos lábios. Não sei se desci à Rua ou sonhei que fazia isso, mas sem saber como
tinha chegado lá, eu me vi entrando no passeio do Born e caminhando até a catedral de
Santa María del Mar. As Ruas estavam desertas sob a luz de mercúrio. Levantei os olhos e
achei que via o espectro de uma grande tempestade abrindo as asas sobre a cidade. Um