O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 117

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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À medida que me afastava daquele lugar, sentia que a magia me abandonava, e a náusea e a dor me invadiam de novo. Caí de bruços duas vezes, a primeira na Rambla e a segunda ao tentar cruzar a Via Layetana, onde um menino me ajudou a levantar e me salvou de ser atropelado pelo bonde. A duras penas, consegui chegar até minha porta. A casa tinha ficado fechada o dia inteiro e o calor, aquele calor úmido e peçonhento que a cada dia sufocava a cidade um pouco mais, flutuava no interior em forma de luz poeirenta. Subi até o escritório da torre e abri as janelas de par em par. Havia apenas um sopro de brisa sob um céu batido por nuvens negras, que se moviam lentamente em círculos sobre Barcelona. Deixei o livro na escrivaninha e disse a mim mesmo que teria todo o tempo de examiná-lo mais detalhadamente. Mas talvez meu tempo já tivesse acabado. Pouco parecia importar agora.
Naqueles instantes mal me segurava em pé e precisava me retesar na escuridão. Consegui resgatar um dos frascos de comprimidos de codeína da gaveta e engoli três ou quatro de um trago. Guardei o frasco no bolso e desci escadas abaixo, não muito seguro de que poderia chegar direto ao quarto. Ao chegar ao corredor, tive a impressão de ver a linha de claridade que havia sob a porta principal piscar, como se houvesse alguém do outro lado da porta. Aproximei-me lentamente da entrada, apoiando-me nas paredes.— Quem está aí?— perguntei. Não houve resposta nem ruído algum. Hesitei um segundo e em seguida abri e parei no patamar. Inclinei-me para olhar para baixo na escada. Os degraus desciam em espiral, esvaindo-se nas trevas. Não havia ninguém. Virei para a porta e percebi que o pequeno lampião que iluminava o patamar estava piscando. Entrei de novo na casa e fechei à chave, algo que muitas vezes esquecia de fazer. Foi então que o vi. Era um envelope de cor creme de bordas picotadas. Alguém o tinha enfiado por baixo da porta. Ajoelhei para pegá-lo. Era papel de alta gramatura, poroso. O envelope estava lacrado e tinha meu nome. A marca gravada sobre o lacre exibia a silhueta de um anjo com as asas abertas. Abri.
Prezado Sr. Martín:
Vou passar um tempo na cidade e gostaria muito de poder usufruir de sua companhia e, talvez, da oportunidade de retomar a discussão da proposta que lhe fiz. Agradeceria