O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 116
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
episódios ou divisões temáticas. Quanto mais o examinava, mais achava que aquilo me
recordava os evangelhos e catecismos de meus dias de escola.
Poderia sair dali, escolher qualquer outro volume entre centenas de milhares e
abandonar aquele lugar para nunca mais voltar. Quase acreditei que era o que estava
fazendo, quando percebi que estava apenas percorrendo os túneis e corredores do
labirinto no sentido inverso, sempre com o livro na mão, como se fosse um parasita que
tivesse grudado em minha pele. Por um instante, passou pela minha cabeça a idéia de que
o livro tinha mais vontade do que eu de sair daquele lugar e, de algum modo, guiava meus
passos. Depois de algumas voltas e de passar diante do mesmo exemplar do quarto tomo
das obras completas de LeFanu duas vezes, encontrei-me sem saber como diante da
escadaria que descia em espiral e, de lá, consegui encontrar o caminho que levava à saída
do labirinto. Pensei que Isaac estaria me esperando na soleira, mas não havia nem sinal
de sua presença, embora tivesse certeza de que alguém me observava na escuridão. A
grande cúpula do Cemitério dos Livros Esquecidos estava mergulhada num grande
silêncio.
— Isaac? — chamei.
O eco de minha voz se perdeu na sombra. Esperei alguns segundos em vão e
encaminhei-me para a saída. A penumbra azul que se filtrava da cúpula foi se apagando
até que a escuridão a meu redor tornou-se quase absoluta. Alguns passos mais adiante,
distingui uma luz que piscava no extremo da galeria e vi que o guardião tinha deixado o
candeeiro ao pé do portão. Virei mais uma vez para examinar a escuridão da galeria. Puxei
a alavanca que punha em marcha o mecanismo de trilhos e roldanas. Os enclaves do
ferrolho foram se liberando um a um e a porta cedeu alguns centímetros. Empurrei apenas
o suficiente para passar e saí. Em poucos segundos, a porta começou a fechar de novo e
cerrou-se com um eco profundo.