O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 115
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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No começo não reconheci meu próprio olhar no espelho, um dos muitos que
formavam uma cadeia de luz tênue ao longo dos corredores do labirinto. Eram meu rosto e
minha pele que eu via no reflexo, mas os olhos eram de um estranho. Turvos, escuros e
transbordantes de malícia. Afastei o olhar e senti que a náusea me rondava novamente.
Sentei na cadeira diante da mesa e respirei profundamente. Imaginei até que o Dr. Trías
poderia achar bem divertida a idéia de que o inquilino de meu cérebro, o crescimento
tumoral, como ele gosta de chamá-lo, tivesse resolvido dar seu golpe de misericórdia
naquele lugar e conceder-me a honra de ser o primeiro cidadão permanente do Cemitério
dos Romancistas Esquecidos. Enterrado em companhia de sua última e lamentável obra,
aquela que o levou ao túmulo. Alguém me encontraria ali em dez meses, em dez anos, ou
talvez nunca. Um grand finale, digno de A Cidade dos Malditos.
* * *
Creio que o que me salvou foi a risada amarga que me esvaziou a cabeça,
devolvendo-me a noção de onde estava e do que tinha vindo fazer. Ia levantar da cadeira
quando o vi. Era um volume tosco, escuro e sem título visível na lombada. Estava em cima
de uma pilha de quatro livros, bem na ponta da mesa. Tomei-o nas mãos. A capa parecia
encadernada em couro ou alguma pele curtida e escurecida, mais pelo tato do que por
algum tingimento. As palavras do título, que tinham sido gravadas na capa com o que
supus ser algum tipo de impressão a fogo, estavam semi-apagadas, mas na quarta página
lia-se claramente o mesmo título.
Lux Aeterna D.M.
Imaginei que as iniciais, que coincidiam com as minhas, correspondiam ao nome do
autor, mas não havia nenhum outro indício no livro que o confirmasse. Passei várias
páginas rapidamente e reconheci pelo menos cinco línguas diferentes alternando-se no
texto. Castelhano, alemão, latim, francês e hebraico. Li um parágrafo ao acaso, que me
lembrou uma oração da liturgia tradicional, que não recordava muito bem, e imaginei se
aquele caderno não seria uma espécie de missal ou apanhado de preces. O texto era
marcado por numerais e estrofes com entradas sublinhadas, que pareciam indicar