O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 114

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Que é...
— De que o homem de preto é o proprietário desse lugar, o pai de todo o conhecimento secreto e proibido, do saber e da memória, portador da luz dos contistas e escritores desde tempos imemoriais... É o nosso anjo da guarda, o anjo das mentiras e da noite.— Está zombando de mim.— Todo labirinto tem seu minotauro— pontificou o guardião. Isaac sorriu enigmaticamente e indicou a entrada do labirinto.— É todo seu. Tomei uma passarela que conduzia a uma das entradas e penetrei lentamente em um largo corredor de livros que descrevia uma curva ascendente. Ao chegar ao final da curva, o túnel se bifurcava em quatro corredores e formava um pequeno círculo, de onde saía uma escada em caracol que se perdia nas alturas. Subi os degraus até encontrar um patamar do qual partiam três túneis. Escolhi um deles, o que achei que conduzia ao coração da estrutura, e me aventurei. Na passagem, roçava as lombadas de centenas de livros com os dedos. Deixei-me impregnar pelo cheiro, pela luz que conseguia se filtrar pelas frestas e clarabóias de vidro encravadas na estrutura de madeira e flutuava entre espelhos e penumbras. Andei sem rumo durante quase trinta minutos, até chegar a uma espécie de câmara fechada na qual havia uma mesa e uma cadeira. As paredes eram feitas de livros e pareciam sólidas, à exceção de uma pequena brecha que dava a impressão de que alguém tinha retirado dali o volume que a ocupava. Decidi que aquele seria o novo lar de Os Passos do Céu. Contemplei a capa pela última vez e reli o primeiro parágrafo, imaginando o instante, muitos anos depois que estivesse morto e esquecido, em que alguém percorreria aquele mesmo caminho e, se a fortuna assim o desejasse, chegaria àquela mesma sala para encontrar um livro desconhecido, no qual eu tinha colocado tudo o que tinha a oferecer. Enfiei-o ali, sentindo que era eu quem ficava naquela estante. Foi então que senti uma presença às minhas costas e me virei para encontrar, olhando-me fixamente nos olhos, o homem de preto.